EDIÇÃO IMPRESSA ATUAL - Nº 90-OUTUBRO DE 2007



Olha a dica aí, gente (Filme)
[23/11/2007- Matéria da Edição :90-outubro de 2007 ]
Filhos da Esperança ("Children of Men")

por Victor Cardozo (9º ano)

Direção: Afonso Cuarón

Elenco: Clive Owen, Julianne Moore, Michael Caine, Chiwetel Ejiofor, Charlie Hunnam, Claire-Hope Ashitey, Pam Ferris, Danny Huston, Peter Mullan, Oana Pellea, Paul Sharma.

Crítica

Antes de mais nada, um filme tecnicamente perfeito, primorosamente narrado pelo diretor mexicano Afonso Cuarón (do aclamado "E Sua Mãe Também" e "Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban", curiosamente ambos filmes sobre a passagem da infância para a vida adulta), com uma belíssima fotografia, um elenco incrível e três das melhores cenas de plano-seqüência (quando a cena corre inteira sem cortes, com uma única câmera seguindo os acontecimentos) já filmadas no cinema recente.
Diante dessas qualidades, pode-se supor que Filhos da Esperança ("Children of Men") seja uma ficção científica convencional, cheia de lasers e efeitos especiais milionários. Mas este não é, nem de longe, um filme convencional. Baseado no livro de P.D. James, ele nos transporta a um futuro desolador, que lembra bem mais uma zona de guerra, como o que vemos todos os dias no jornal.
O ano é 2027. Inexplicavelmente, todas as mulheres tornaram-se inférteis, e o caos se generalizou na população. Londres é uma das poucas cidades que ainda sobrevive; a maioria já foi destruída ou transformada em campo de guerra. Ataques terroristas são diários, e o governo é totalitário; imigrantes são postos em jaulas ao redor da cidade ou campos de concentração. O desespero atinge proporções absurdas (a ponto de o governo distribuir kits de suicídio gratuitamente), pois, sem um futuro biológico, não há motivo ou meios de impedir a nossa lenta e inevitável extinção. O ser humano mais jovem do planeta é um Diego, um argentino de 18 anos (apelidado de "Bebê Diego" pelos jornais), e acaba de ser assassinado por não dar um autógrafo. O burocrata Theo Faron (Clive Owen num de seus melhores papéis até hoje), após essa notícia, usa-a como desculpa para tirar uma folga no trabalho e visitar um velho amigo, Jasper (Michael Caine, ótimo), um ex-cartunista e ativista aposentado. Voltando à cidade, Theo é seqüestrado pela ex-esposa, Julian (Julianne Moore), que é a líder de um grupo guerrilheiro chamado Peixes. O seqüestro era apenas encenação, Julian quer apenas um favor de Theo: documentos para uma jovem refugiada negra chamada Kee (Claire-Hope Ashitey). Theo, assim como Julian, já foi ativista há muitos anos, mas, após a morte do filho do casal e o surto de infertilidade, ele se desiludiu e transformou-se num burocrata amargurado enquanto ela se tornou uma rebelde procurada pela polícia. Após conseguir o documento, Theo descobre que a moça está grávida e que Julian quer levá-la pacificamente para ser estudada e cuidada por cientistas, enquanto os rebeldes querem usar o "milagre" como arma política. Theo deve redescobrir suas convicções e proteger Kee, ou a extinção da espécie humana estará definitivamente selada.
Filhos da Esperança é um filme doloroso de se assistir. Mas não pela sua visão dura e pessimista, ou pela violência de algumas cenas. O melhor do filme não é apenas (re) afirmar, com seqüências impactantes e uma trama ácidamente próxima da nossa realidade, o destino destrutivo (e, segundo muitos, inevitável) que a natureza humana reserva a si mesma (como já fizeram muitos outros filmes). A despeito de todo a crueza, toda a violência, todo o inegável realismo que é exposto ali, o que mais entristece são pequenos momentos de beleza situados à medida que a trama segue. O longo plano-seqüência num carro, uma das melhores cenas do filme, vai de uma calorosa e terna confraternização entre Theo, Julian e os rebeldes (onde o ex-casal tem uma rápida reconciliação) a uma morte violenta e inesperada, que termina com uma perseguição tensa e brutal. O filme nos atinge não por demonstrar o quanto o ser humano consegue ser ruim, e sim por insistir amargamente na crença de que não há nada que o ser humano não possa, não consiga destruir... ou salvar. E é essa melancólica intensidade, esse misto de desolação e possibilidade de redenção que torna Filhos da Esperança um filme único.