EDIÇÃO IMPRESSA ATUAL - Nº 90-OUTUBRO DE 2007
Clouse Marinho
Luis Maffei (centro) no debate sobre música e literatura, na II Feira do Livro de Sergipe



Impressões de um visitante acarinhado
[23/11/2007- Matéria da Edição :90-outubro de 2007 ]
Sim, é exatamente do carinho que parte este escrito. Porque parte da única ponte possível para qualquer relação, mesmo que seja com livros ao meio, com papel por toda parte. Com livros ao meio, na mão, cheguei à Feira do Livro, na condição, sobretudo, de poeta. E gostei do que vi. E gostei do que ouvi. E gostei de ter dito o que disse, apesar de não garantir ter gostado do que disse (quem sou eu para dizer tal coisa?). Mas gostei.

A Feira do Livro é, de partida, um evento distinto daqueles de que estou acostumado a ouvir dizer. Porque a Feira do Livro de Sergipe não é uma festa. Que bom: a poesia, desculpem, a literatura não é uma festa. Talvez o seja no momento da leitura, no qual pode haver o gozo, a bomba, o gozo, o efeito que tiver lugar, inclusive o gozo. Mas esta será uma festa solitária, ou melhor, a dois, leitor e livro, leitor e obra. Um evento que cultive a literatura tem de ter carinho, mas tem de ter densidade, condensação de posturas e, sobretudo, conversas. Conversas sobre literatura, com literatura. Não são necessárias estrelas. Não são necessários fogos de artifício. Nem grandes editoras. Não estamos, felizmente, em Parati. Digo outra vez: a Feira do Livro é, de partida, um evento distinto daqueles de que estou acostumado a ouvir dizer, pois não os freqüento, nem em Cabo Frio, nem no Riocentro. Não pretendo vir a freqüentá-los. Mas a Aracaju volto, e volto a voltar, com todo prazer.

Caso eu tenha em mente a idéia da formação do leitor, posso considerar a Feira do Livro como um acerto, um admirável acerto. Pois vi adolescentes diante de manifestações cheias de literatura, diante, logo, de um processo de sedução. Sem fogos de artifício. Com livros. Com acertos. E com interesse. Aracaju talvez não saiba, mas é, quando da Feira do Livro, um espaço de resistência. Que continue a ser, que a sedução não mude.

E que não mude tampouco a celebração do texto e não do autor, e a celebração do livro enquanto lugar de surpresas e maravilhas, lugar de problemas e efetivações do inesgotável universo da literatura, e não enquanto objeto meramente vendável e consagrador de nomes (mal) iluminados. Sim, senti-me acarinhado na Feira do Livro, porque me senti muito dentro da literatura. E este carinho, também, que não mude, pois ele não se faz apenas de papéis, mas da única ponte possível para qualquer relação que se queira saudável.
Obrigado.

Luis Maffei
* Poeta, compositor, músico, crítico literário, Doutorando em LiteraturaPortuguesa pela UFRJ