EDIÇÃO IMPRESSA ATUAL - Nº 90-OUTUBRO DE 2007




[23/11/2007- Matéria da Edição :90-outubro de 2007 ]
Os preconceitos impõem-se à generosidade em algumas situações. Eles fazem um terrível mal à saúde: prejudicam a visão, a audição, a cognição e corroem, de forma aviltante, sentimentos nobres. Estes que nos retiram da condição de narcisos - de só vitrine, que não contemplam senão a si mesmos - e abrem as portas para que possamos ler coisas lindas sobre nosso mundo. A Nossa Escola, com seus professores e alunos, no final de outubro, fez isso: dirigiu-se aos poemas de Luis Maffei, André Luiz, Anderson Góis e João Brasileiro, que fizeram transbordar belos gestos, sutilezas, picardias e o melhor do humor nordestino em suas rimas. O preconceito de que aqui falo, em tempo esclareço, com brevidade, porém: é "a inveja", que instiga em muitos o fazer do outro. Mas que, contido, descortina e torna audível o entorno, ou seja, contendo as queixas "co' ânimo... vence tal batalha, se o grave corpo a força não desleixa" (Alighieri).
É o que fazemos quando vamos construir algo, - conter queixas e mobilizar forças - pois o som dessas é primitivo, desafinado e muito agudo - se com ele perdermos o nosso tempo, há o risco de sabotarmos grande parte de nossa energia, cujo fito deve ser os sonhos de vida. Após vencermos nossa inveja e a do outro, temos que vencer a impaciência dos que apenas se queixam de tudo que se faz. Os ressentidos são em ronha, e sua estridência é irritante. Estamos assim numa outra fase de evolução - a de vencer a impaciência - que já se reflete em nosso discernimento. Em meio a tantos ruídos, juntamo-nos aos mais criteriosos, que querem construir ao invés de nos esgotar com intermináveis lamentos. Regina Drummond, sem saber, lá de Munique, Alemanha, mandou esta mensagem de força: "sei o trabalho que dá, os problemas de todo tipo que se precisa enfrentar e, apesar de tudo isso, sei também que os organizadores vão ouvir reclamações e críticas, sobretudo daqueles que nada fazem!" Funciona mais ou menos como o ditado popular: "quanto mais se reza, mais assombração aparece." Entre os percalços e as portas que se abrem, a escritora afirma ir em frente com sua prosa. Ela abre mão de parte da herança do eterno Carlos Drummond de Andrade, seu tio, das métricas, mas não de sua poesia. Esse parentesco - achei bonito isso - ela o define como um presente da vida. Descobrimos, entre os bons amigos, os poemas, os "causos" do nosso doce vizinho José Cândido da Silva, compositor de Carcará. Ele tocou fundo o coração de quem o viu e ouviu. Imagine! Tão incrível e morando pertinho de nós, na Coroa do Meio. Ah, veio Ieda de Oliveira, que deixou sua função de docente universitária para, com muito talento, dedicar-se à literatura e a uma boa piada também. No Empório Português, ao som de um fado, foram só delícias: o bacalhau, sua rica história de vida e seu talento para contar piadas. Saímos dali e fomos ao espetáculo singular de Marcelo Xavier, que está aqui descrito em seus detalhes mais ternos. Momento solene mesmo, daqueles que sempre fustiga a curiosidade de muitos, foi com a Academia Sergipana de Letras, que abriu, para o grande público, uma sessão muito especial do jeitinho que acontece às tardes das segundas-feiras, na sede da instituição. Mas não foi só: Aglaé Fontes, com mil títulos por esse mundão de Deus, esteve muito presente na Nossa Feira. Luiz Antônio Barreto, ao lado de Sílvia Leite, descreveu o jornalismo na história de Sergipe, o que fez de todos um pouco mais sergipanos. "... se é sempre mais algo quando se conhece mais do que se é". Inspirados nessa gente que aqui citei e que nesta edição ficará mais conhecida, aprendemos muito sobre o prazer de ouvir e de ler boas histórias. Descobrimos pessoas que gostam de construir boas coisas. Isso é vital. Entre essa gente, estão nossos alunos, seus pais, muitas pessoas e empresas cujas logomarcas desfilarão em nossas edições - nosso Secretário da Cultura, Fátima, Sônia, Sandra, Silvane, Francisco, Maria Antônia, Fabrícia, Antônio Vieira, Dalmo, Luiz Sérgio, Wilson Góis, Vânia Cleto, Mara, Paulo Eirado, Dayse, Cristiane, Max Dayvid ... - a quem somos gratos.
Por muito tempo, sei que não vou conseguir falar de gratidão sem me lembrar da doce figura de Oswaldo Giacóia Júnior, que nos honrou muitíssimo com sua presença e com seu jeito absolutamente cuidadoso e reverente. O professor fez a leitura de um longo trecho de Zaratustra, mas de um jeito que não deu para que ninguém se perdesse do caminho traçado por ele. O que deu foi muita vontade de conhecer mais Zaratustra. De preferência, conduzida pelo professor. Em sua voz, há luz. Por ele, reafirmamos a crença na importância da palavra como mediadora entre o homem e o mundo, e mais precisamente na importância do professor entre o aluno e o livro. Não só as palavras do filósofo positivaram nossa profissão, mas tudo o que vivemos durante essa semana de outubro. Marcelo Xavier presenteou com um livro trezentos alunos, e eles o receberam com uma alegria indescritível - era só um livro para toda a turma. Os livros do autor, num dado momento, foram exibidos de pertinho, entre as crianças e os jovens, na platéia. Não imaginávamos tão viva a curiosidade das crianças e dos adolescentes. Após sua palestra, fomos rodeadas por muitos deles, que nos pediam com insistência: "um livro, unzinho que seja".
Depois de tudo isso, algo me vem martelando a cabeça: são muitos os escritores, e os leitores por eles estão ávidos. Urge que ocupemos, com dignidade e coragem, o lugar de mediador entre o aluno e o livro. Sem perdermos tempo na busca de culpados para pouca leitura em nosso país. Tenho mesmo pensado que a mídia está muito é inocente nessa história, quando a comparamos com a negligência de todos que deveriam e poderiam estar por aí contando história e distribuindo livros, cumprindo com a "Função de Professor".

Edmê Cristina