EDIÇÃO IMPRESSA ATUAL - Nº 90-OUTUBRO DE 2007
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Um casal de muita fé



Está no caritó? Fique, não. Tenha fé no Santo Antônio
[20/09/2006- Matéria da Edição :79 - agosto de 2006 ]

A gente se encanta com boas histórias de amor... Dizem que isso é só coisa de mulher. Mas não é não, sabia? Eu posso provar isso com o causo que passo a relatar. Com muito gosto. Eu garanto, desde já, que há homens que também se derretem por bobices assim. E isso me comove tanto quanto as histórias de amor.
Eu tenho uma amiga, intelectual, racional, bonita que só. Gaúcha, morena e de olhos verdes. Mas, por escassez de homens no mercado, eu creio, ela andava recebendo algumas indiretas. Eu nunca dei, não... mas eu pensava: tão linda... coitada! Será que vai se encalhar mesmo, ficar guardada no caritó? Num diazinho lá, em meio àquelas amigas, tipo "eu sou infeliz, mas tenho marido", após um encontro de intelectuais com intermináveis discussões que nem eles mesmos agüentam, deveria vir o leve: piadas, risos..."experimentar o novo", mas não foi bem assim. Começou uma discussão enjoadinha que terminou na igreja de Santo Antônio. Deu seqüência num ritual de beijar pé de santo, de se humilhar... Mas humilhar, ameaçar o santo, isso ela disse que não fazia mesmo. Nem era por crendice nem por temer vingança do santo, que ele pudesse mandar pro alto suas esperanças. Afinal, era uma doutoranda - agnóstica, como se diz -, mas xingar, não xingou mesmo porque respeita as crenças alheias, os santos dos outros.
Foi quando, em seu socorro, veio o jovem... Por inspiração do santo?! Pode. Ali mesmo, na porta da igreja... Amigo do grupo, incomodou-se com o prolongamento de toda aquela exposição. Religiosa, mas humilhante. Cochichou, então, no ouvido de uma amiga em comum. Dela e dele: - Não carece de tanto, eu não vim pro mesmo? Quem sabe, nós dois resolvemos juntos essa situação... Algo assim como dois coelhos mortos por uma cajadada só, ou por um santo só...
Por conta daquele gostinho que todos têm por algumas maldades, a amiga não passou o recado de pronto. Deixou o ritual prosseguir... Só depois de tudo feito, que ela anunciou o conteúdo do cochicho. Não sei se o jeito que fez foi por amizade, por brincadeira maldosa ou na defesa, com estardalhaço, da fé no santo. Sem discrição nenhuma, transmitiu, enfim, o recado. A resposta da gaúcha veio de chofre, botou às claras toda a sua ansiedade e determinação:
- Bem, o senhor quer contrair mesmo o laço do matrimônio comigo?
Por essa, claro, o moço não esperava... Ficou ali com um sorriso bobo no rosto... Mas a gaúcha não se fez de rogada; esclareceu melhor:
- É que sou gaúcha, tchê. E mulher da minha terra já traz o contrato de casório no bolso.
Ele nem desfez o sorriso, nem respondeu.
Bom, daí, para não estragar de vez com a oportunidade dada pelo santo, por pura precipitação, ela flexibilizou um pouquinho. Aliviou pro lado do rapaz. Suavizou a voz e...:
- Tudo bem, pode responder amanhã.
E aliviou mesmo. Ele desfez o sorriso de bobo, que era de puro sufoco... e foram todos jantar. Nessa noite não se falou mais disso. Veio o leve.
Mas, no dia seguinte... não é que o santo deu suas provas de mesmo existir...O rapaz telefonou. Ela já estava longe, noutra cidade, e assim mesmo, ele pediu pra ir lá e foi.
Sendo assim, moças casadoiras, não percam a fé, humilhem-se, mas demonstrem respeito pelo santo porque a gaúcha morena, de olhos verdes, já mudou de emprego, já mudou de cidade - para junto do noivo -, e nós aqui estamos na espera dos convites de casamento de acordo com os conformes.
Para aumentar mais ainda a fé em Santo Antônio, eu até vou contar um segredo deles: não há cidade em que o casal chegue... e não faça uma visita à igreja de Santo Antônio em agradecimento por essa história de amor.
- Quem faz questão - diz ela - é o rapaz. Você sabe, eu sou muito racional...
Pode? Depois de tudo, ela vir com essa de que só agradece ao santo por respeito à crendice dele, de seu príncipe? E a gente, claro, só ri; nem fingir a gente finge que acredita.

Maria Luiza Cannes da Noca