EDIÇÃO IMPRESSA ATUAL - Nº 90-OUTUBRO DE 2007



Igual em tudo na vida?
[26/06/2007- Matéria da Edição :87-Junho de 2007 ]
Ajoelhado sobre o altar, as mãos cobrindo o rosto, os joelhos já doíam há algum tempo. Mesmo assim, a agonia da oração não cessava. Era um sussurro cuspido, quase sem intervalo, a respiração como se não existisse, e os olhos, semi-cerrados, diziam já sofrer demais.
Severino era negro, os olhos miúdos, ao contrário da boca e do nariz grandes, que não deixavam esconder sua origem negróide. Por tantas vezes tentou esticar os cabelos crespos que acabou um dia sem eles. Não que fosse inconformado com sua raça; apenas queria ter os cabelos lisos como os de seus colegas de classe da escola em que estudou a vida toda.
A vida dele era mais ou menos boa. Uma mãe pouco atenciosa sustentava sozinha a casa e um pai não muito sóbrio. Morava numa casa com uma brisa quente, chata, num bairro de uma tranqüilidade fingida em Serra Nova Dourada, a menor cidade do Brasil, localizada em Mato Grosso. Não tinha irmãos e conversava com um cachorro vira-lata chamado Edgar.
Severino não fazia nada sem antes analisar profundamente. Se fosse tomar um banho, pensava antes quantas horas haviam se passado desde o último, com que proporção suas células sudoríparas haviam liberado suor multiplicando o número de células pelo tempo de suas atividades. O resultado iria depender do grau de esforço dessas atividades, que geralmente era quase nenhum. Concluindo, assim, uma média de um banho a cada 24 horas.
Era fedido, de fato, porém muito inteligente, sim. Amava as formigas. A organização delas era divina. Colocava o dedo quando os animais estavam em fila, para vê-las desorganizar-se todas de uma vez. Era lindo.
Não gostava de meninas; achava-as fúteis e falsas umas com as outras. De meninos também não gostava; eram feios. De si mesmo, tinha uma admiração sutil, acompanhada de um leve desejo de morrer e conhecer outras dimensões.
Não comia carne, tinha raiva de quem não deixou os animais a continuar seu ciclo natural de vida. Sonhava com uma superpopulação de vacas, todas elas andando pelas ruas, defecando nos canteiros e adubando o solo. Seria lindo.
De música, Severino não gostava, dizia que o tímpano agitado reduziria sua capacidade de raciocínio. Sexo só fez uma vez em sua vida, com Edgar, mas não gostou, achou nojento. Ah... Edgar... Este odiava Severino, que não conseguia entender o porquê, já que usava o cãozinho de cobaia em todas as suas experiências científicas . É isso aí, meu caro canino, você irá revolucionar o mundo - dizia sempre, afagando a cabeça do cachorro contra o peito magro.
Ontem, já eram 6 horas e Severino ainda não havia acordado. Um absurdo já que costumava acordar o galo todos os dias, às 4 h 30 da manhã. Dormiu, dormiu, acordou ao meio-dia, tomou um banho frio, sentou à mesa e comeu um pão doce com formigas. Saiu sem dizer bom dia ao Edgar. Até a praça da cidade, matou duas baratas que estavam em seu caminho e, quando lá chegou, sentou-se, acendeu um cigarro e chamou uma beatinha que passava para a igreja de gostosa.
Pobre Severino. Hoje, quando entrei na igreja, já estranhei vê-lo rezando daquela forma. Mas estranho mesmo foi quando, duas horas depois, ele postou-se diante do altar e, desesperado, sussurrou: "Oh, Irmão das Almas! Irmão das Almas! Não fui eu que matei, não". Citou Cabral de Melo Neto para desculpar-se pela morte das baratinhas e das formigas que moravam no pão.
Terminou esta breve estória louco, coitado. Atordoado pela dupla personalidade, assassinava bichinhos num dia e pedia misericórdia no outro.
Paloma Augusta