EDIÇÃO IMPRESSA ATUAL - Nº 90-OUTUBRO DE 2007



Nossa dívida comum
[06/06/2007- Matéria da Edição :86 - Abril/Maio de 2007 ]
Quem pagará pelos estragos do aquecimento global?
O carro está na garagem, no mesmo lugar de sempre. O café apressado faz Carolina engolir a última porção da refeição enquanto se acomoda, com seu irmão mais novo, no banco de trás do automóvel.
O caminho até a escola é breve quando não atrapalhado por engarrafamentos. Naquele dia, a viagem demorou. As obras de restauração de uma ponte causavam um grande congestionamento, e a conversa com o pai pôde ser demorada.
- Pai, o que é aquecimento global?
- O nome já diz, filha. É o aumento gradual da temperatura ambiental da terra. - E por que isso acontece?
- Essa é uma história longa e complexa, além de controversa.
- Controversa? Como assim?
- Há muitas opiniões, algumas bem diferentes das outras. Vou tentar explicar: Alguns cientistas lembram que nosso planeta já passou por várias mudanças climáticas catastróficas. Estou falando de milhões de anos atrás. O homem é mais recente, muito mais recente nesse cenário. A era glacial é um exemplo: a terra ficou coberta com gelo, e muitas espécies de animais e plantas foram extintas.
Mas é recente e quase unânime a opinião de que, nos últimos 200 anos, o homem alterou substancialmente o ambiente onde vive. Mais gente, mais casas, mais desmatamento, mais automóveis, máquinas, aviões, caminhões, fábricas, mais poluição enfim. Isso também está cientificamente apurado e provado. O dilema é: a terra está sendo aquecida pelos hábitos recentes do homem, ou é um processo universal, natural, cósmico? Penso que podem acontecer as duas coisas e sinto que está difícil até de cuidar da nossa parte.
- Como assim, pai?
- Agora mesmo estamos contribuindo para aumentar o aquecimento global. O carro onde estamos é movido pela queima de combustível, que provoca calor e fumaça, que, por sua vez, aumenta o efeito estufa, pois a fumaça está cheia de partículas poluentes, como o gás carbônico, que, quando em suspensão, dificulta a dissipação do calor da atmosfera.
As conseqüências estão sendo sentidas em todo o mundo. Inundações, secas, incêndios florestais, furacões e degelo polar nunca ocorreram com tamanha intensidade e freqüência. Vidas perdidas e prejuízos que se acumulam. A comunidade científica mundial vem alertando para o problema, prevendo que tais catástrofes tenderão a aumentar vitimando milhões de pessoas e consumindo recursos preciosos.
- O mundo vai se acabar, pai?
- Não creio, filha. Acho que, se continuar como está, deverá ocorrer o fim de muitos dos seres vivos, e nós poderemos estar aí incluídos, mas o planeta provavelmente sobreviverá. Resta-nos optar por uma mudança radical em nossos hábitos, para que tenhamos mais tempo para...
A buzina do carro, atrás, faz o pai de Carolina voltar sua atenção para a avenida, agora desimpedida. O silêncio acompanha-os até a porta da escola. As crianças descem rapidamente. O mundo tem pressa. Carolina também.
por Cláudio Cruz