EDIÇÃO IMPRESSA ATUAL - Nº 90-OUTUBRO DE 2007
Lindemberg Monteiro e "nosso" ator Luciano Góis, alunos, professoras e coordenadoras da Nossa Escola



"A Nossa Escola sempre me chama atenção pelo conteúdo das perguntas dos alunos"
[06/06/2007- Matéria da Edição :86 - Abril/Maio de 2007 ]
Em entrevista para o Nossa Voz, o diretor e ator Lindemberg Monteiro fala do espetáculo sobre Mário Jorge e elogia o ensino da Nossa Escola
"Formar alunos e alunas que formulam e refletem sobre os temas da vida e não apenas decoram respostas de vestibular deveria ser o objetivo principal de todas as instituições de ensino". Com essas palavras, o ator e diretor Lindemberg Monteiro da Silva elogiou o ensino da Nossa Escola e os alunos que compareceram ao Teatro Atheneu, no dia 25 de abril, para assistir à peça "Mário Jorge: leia em voz alta para o seu estimado cachorro", em cartaz no teatro às quartas-feiras do mês de abril de 2007. O espetáculo homenageia Mário Jorge, uma personalidade sergipana ainda pouco conhecida, mas importante pelas suas poesias e pela sua visão crítica da realidade. Há 20 anos no mundo da arte, Lindemberg já escreveu 11 textos, sendo dois premiados nacionalmente. Confira abaixo entrevista completa com o ator e diretor.
NOSSA VOZ - Há quanto tempo o senhor está no mundo da arte e do teatro? E, nesse período, quantas peças já escreveu?
Lindemberg Monteiro - Há 20 anos. Nesse tempo, já escrevi 11 textos, sendo dois premiados (A Última Noite de Harrison - Prêmio Novos Talentos da Rioarte - Fundação de Cultura e Arte do Rio de Janeiro e Júlia e o Lobo - Prêmio Dramaturgia da Funcaju - Fundação de Cultura, Esporte e Turismo).
NOSSA VOZ - Como surgiu a idéia de montar o Espetáculo "Mário Jorge: leia em voz alta para o seu estimado cachorro"?
LM - A Stultífera Navis já vinha com o desejo de montar algum texto que falasse sobre nossa identidade, sobre nossas coisas, e Mário Jorge, que ainda é pouco conhecido, parece-nos muito atual apesar dos 30 anos de sua morte. As características de Mário Jorge são um excelente instrumento de colocar o público, principalmente o jovem, com sua sergipanidade. Por isso, resolvemos, há dois anos, começar esse projeto lendo suas poesias, entrevistando pessoas que conviveram com ele e experimentando algumas linguagens para o espetáculo, até chegarmos a esse produto 'quase final'. Já que a nossa característica é sempre estar mexendo nos nossos espetáculos, mesmo depois da estréia.
NOSSA VOZ - Como o espetáculo sucede? Fale um pouco sobre o roteiro.
LM - Partimos do princípio de que os atores e músicos são uma trupe de hippies e artistas que estão ali para contar, do jeito deles, a história sobre um grande poeta e que tudo é feito de uma forma descontraída e irreverente. Utilizamos as poesias de Mário junto com algumas entrevistas que ele deu e, lógico, com um pouco do nosso olhar de ficção para criar um roteiro quase biográfico, que valoriza não necessariamente o homem, mas suas idéias e o que ele significa através delas. Tudo isso com muita música, que tem um repertório que dá referências da época que ele viveu. Tudo para provocar e acordar o Mário Jorge que está em cada um de nós.
NOSSA VOZ - Há quanto tempo o espetáculo se apresenta?
LM - Um ano mais ou menos. Antes tínhamos uma performance chamada "Mário na Frente do Armário". Apesar de a linguagem ter que se adaptar ao novo espaço, ao mesmo tempo nos possibilitou utilizar outras linguagens, como o telão com fotos e desenhos de Mário Jorge.
NOSSA VOZ - Como o espetáculo de Mário Jorge se saiu depois de deixar a rua e ir para o teatro? Os resultados foram os esperados?
LM - Não. Nunca é. Queremos que mais pessoas possam conhecer a obra e um pouco da história de Mário Jorge. Então sempre achamos que poderiam ir mais pessoas. Além de ser um espetáculo caro, por conta da sua estrutura de banda, telão, adereços. Isso não significa que não ficamos emocionados com essa temporada. E pretendemos voltar com outra em agosto.
NOSSA VOZ - Quantos atores participam da peça?
LM - São sete atores, seis músicos, um operador de telão, um técnico de som, um iluminador, um diretor, um diretor musical, um contra-regra e três produtores. Além da ajuda de muitos amigos.
NOSSA VOZ - Como o senhor justifica o encantamento do público diante deste espetáculo?
LM - Música, poesia, teatro e identidade cultural, quando se misturam em busca do que há de melhor e mais humano nas nossas almas, são fórmulas exatas para encantar. O espetáculo é leve e descontraído, mas sem perder o conteúdo. Entretenimento pode ser juntar informação e formação sem perder alegria e sem se comprometer com as nossas necessidades como pessoas. Bolinhas de sabão combinam com denúncia de tortura. São símbolos que estão internalizados em nós. Mexer com esses símbolos nos faz chorar e dançar - não necessariamente nessa ordem.
NOSSA VOZ - Na sua opinião, qual foi a importância da presença da Nossa Escola no espetáculo?
LM - Algumas escolas marcam a sua presença através da qualidade na participação dos alunos. A Nossa Escola sempre me chama atenção pelo conteúdo nas perguntas dos alunos e alunas. Uma das meninas da Nossa Escola perguntou sobre as máscaras dos bufões na cena da tortura de Mário Jorge, fazendo uma análise simbólica da proposta da cena. Muito bom. Formar alunos e alunas que formulam e refletem sobre os temas da vida e não apenas decoram respostas de vestibular deveria ser o objetivo principal de todas as instituições de ensino.
Nossa Escola em cena
O professor de teatro da Nossa Escola, Luciano Góis, foi um dos atores do espetáculo "Mário Jorge: leia em voz alta para o seu estimado cachorro".
No palco, ele recita, canta, dança. Perguntado sobre o que é, para o ator, essa demanda de ações em um só espetáculo, ele diz que é um enorme prazer e, ao mesmo tempo, uma grande responsabilidade.
"É preciso conhecer seus limites e superá-los. Um ator deve buscar as informações necessárias que tem dentro de si para alcançar o resultado esperado. É claro que existe todo um processo de pesquisa, ensaio e concentração por trás de tudo isso. E é fundamental o entrosamento entre os atores e músicos, para que possamos fazer o público vivenciar uma época, uma idéia, um sentimento. Dessa forma, todas as ações em palco tornam-se prazerosas. O desgaste fica retido mais no desenvolvimento (ensaios), do que propriamente na finalização (espetáculo)".