EDIÇÃO IMPRESSA ATUAL - Nº 90-OUTUBRO DE 2007
Mont.: Léo Augusto
Mariana (6ª série) continua, de volta ao passado, com a ajuda do escritor Jorge Caldeira



Para quem tem sonhos de grandeza - parte final
[29/01/2007- Matéria da Edição :82 - nov_dez 2006 ]
Mariana: O Sr. Barão acredita que o sr. Carruthers aprovaria a aventura de investir no Uruguai e na Argentina, nessas condições descritas?
Barão de Mauá: Não. Em absoluto. Eu o conheço bem. Se Carruthers estivesse por perto, provalmente me aconselharia a desistir. Eu fiz tudo isso em troca de uma vaga promessa de proximidade de um rei de 25 anos, e portanto muito sujeito a se esquecer de suas promessas. Só que Carruthers não estava por perto, e resolvi apostar na promessa. (...) No dia 21 de março de 1850, Paulino mandou um bilhete a Andrés Lamas: "creio haver encontrado quem fornecesse ao governo do Uruguai os recursos necessários para a defesa de Montevidéu. Era, então, o ponto de marca, que dele não se pode mais voltar para trás".

Mariana: E como foi daí em diante?
Barão de Mauá: Dali em diante, eu reviveria as emoções do tempo em que ajudei os prisioneiros gaúchos, só que em escala ampliada. O meu envolvimento com o Uruguai acabou resultando em bons lucros. Fortaleci a minha fortuna, fiquei, na realidade, muitas vezes mais rico. Conquistei o respeito daquele país. Tal qual eu sempre quis conquistá-lo no meu próprio. A América Latina, no entanto, estava se construindo e o Uruguai teve os seus maus momentos com guerra interna, com golpes de estado, com políticas econômicas equivocadas, que ajudou a fazer ruir o império Mauá, construído para garantir o progresso e o crescimento.

Mariana: Como o imperador se sentia em relação a sua preocupação, a sua influência sobre outros países?
Barão de Mauá: Ele se ressentia. A vaidade, a inveja sempre destruíram as relações e impediram a grandeza deste país.

Mariana: Qual é a avaliação que você faz de sua vida?
Barão de Mauá: Creio que a história deve avaliar. Eu comecei a vida sozinho, numa cidade grande, com nove anos de idade. Comecei como caixeiro. Com quinze anos, já era homem de confiança do patrão; com 23, sócio de excêntrico escocês e com trinta, um dos homens mais ricos do Império. Aos 32, tornei-me um industrial (o primeiro do país) e para isso tive que brigar contra uma sociedade provinciana, que considerava o feitor como o melhor gerente de recursos humanos. Depois fui dono de bancos, estradas de ferro, companhias de navegação e serviços públicos. Ampliei, como já disse, o meu campo de ação. Creio , sem nenhuma modéstia, que vislumbrei uma aliança regional semelhante ao que hoje é o Mercosul.
O crescimento de meu conglomerado - chegou a controlar 17 empresas - assustou a tal ponto meus contemporâneos que logo levantou uma onda de inveja e gritaria. Mais um pouco e eu já estava enfrentando governos e governantes, guerrras, ataques pessoais, pânico entre os clientes de meu banco.
Nunca esmoreci, no entanto, mesmo quando me vi obrigado a liqüidar minhas empresas, forçado pelas leis da época.
Velho e rico, cheguei até o final da minha vida.

Todas as informações foram abstraídas do livro “Mauá - Empresário do Império” de José Caldeira, que nasceu em 1995, em São Paulo, e é jornalista, mestre em Sociologia e doutor em Ciência Política.

O autor acrescenta que Barão de Mauá morreu velho e rico, trabalhando até o final da vida. Ironicamente, seu ocaso e a sua morte coincidiram com o fim do Império, ao longo do qual, mesmo remando contra a corrente, protagonizou uma aventura empresarial sem paralelo em qualquer outro momento no Brasil.