EDIÇÃO IMPRESSA ATUAL - Nº 90-OUTUBRO DE 2007
Mont.: Léo Augusto
Mariana (6ª série)



Para quem tem sonhos de grandeza - parte 2
[22/01/2007- Matéria da Edição :81- outubro de 2006 ]

Mariana: Por que um homem tão rico como o senhor também queria reconhecimento social?
Barão de Mauá: Eu poderia me contentar com os grandes lucros. Poderia me contentar quando olhava para o meu bolso, via que o ano fora brilhante e as minhas possibilidades aumentavam. As empresas acumulavam um enorme capital aplicado em meus estabelecimentos a taxas de juros baixas, prometiam e rendia mais lucro. O público de diversas partes do mundo se dispunha a confiar mais e mais em minhas empresas, e confiança traz investimento, traz juros baixos, coisas que trazem, por sua vez, sempre, sempre mais lucros.
No meu caso, no entanto, a situação no Brasil era tão desconfortável que, se eu divulgasse os meus lucros, seria um grande problema. Eu atrairia mais investimentos, mas também atrairia uma onda de ataques. Uma fortuna sempre aumentada, no Brasil, soava como prova de que seu proprietário fazia alguma coisa errada, nunca como sinal de bom serviço ao progresso do país.
Essa visão disseminada pelo poder da época e incorporada pela população, de modo geral, deixava a minha relação com Dom Pedro II, em todos os âmbitos, meio estremecida. Eu não sei dizer, mas sempre achei que deveria ser visto como o homem que eu me julgava ser.

Mariana: Você se tornou um dos maiores empresários do mundo.Como uma criança pobre conseguiu ficar rica que nem você?
Barão de Mauá: Quem propiciou a grande oportunidade de minha vida foi Richard Carruthers, um escocês. Ele foi quem me acolhera quando eu era ainda um jovem. Foi um pai... Desde que deixara o Brasil para viver na Escócia, deixara comigo seus negócios, além dos melhores conselhos e orientações. Isso aconteceu quando eu completava 22 anos de idade. Enquanto trabalhava, eu também estudava e, de tanto estudar, eu passei a dominar todos os segredos do caminho em que um dia fora colocado. Diz Richard Carruthers, no seu jeito seco, que eu havia dominado, em tempo recorde, todos os detalhes da vida da empresa.
Conheci a fundo como se dava o comércio britânico, como os ingleses contavam com algumas vantagens para enfrentar as crises comerciais do Brasil Imperial. Para quem dispunha de capital, ganhar dinheiro em meio àquela crise era como tirar o doce da criança. Percebi a importância da liberdade de mercado; vi, até com uma certa tristeza, que os brasileiros e ingleses pobres não eram menos hábeis, mas simplesmente que o jogo dependia de capital - que o mercado londrino fornecia barato, mas só para alguns escolhidos. Aprendi tudo sobre câmbio, um jogo que dava muito dinheiro. Mais que comprar e vender, era fundamental ter crédito como auxiliar indispensável... Eu tinha conhecimento, talento, capacidade de trabalho, mas isso podia dar em nada. Faltava-me o essencial: capital... Eu estava povoado de sonhos de grandezas.
Foi quando, no início de 1835, em 25 de dezembro, três dias antes do meu aniversário, Carruthers, um grande pai, mais meu do que de seu próprio filho, anunciou que iria se aposentar e que escolhia a mim para ser o seu sócio e continuar tudo que ele já vinha construindo. Eu receberia participação no capital da empresa e uma procuração que me dava os poderes para tocar os negócios como se a firma fosse apenas minha.
E depois...depois, não permiti que Carruthers se arrependesse em ter escolhido a mim como seu herdeiro - propiciando-lhe caixa seguro, prudência nos gastos e bons lucros, bem medidos. Era tudo o que ele desejava. Mostrei ser bom pupilo. Nunca deixei de agir decentemente, de corresponder à sua confiança e à confiança de meus outros pares. Aprendi precocemente que credibilidade gerava grandes empréstimos, juros baixos e muito lucro.
Fui mais louvado fora, é verdade, e menos reconhecido no Brasil...o que lamentei. Recebi, em 1860, o reconhecimento do Barão Lionel de Rothschild. Isso, sim, era um invejável reconhecimento. O barão Rothischil era o Deus do Olimpo econômico do século XIX, e um gesto como aquele equivalia a reconhecer-me como um deus legítimo entre os deuses. Poucos ricos comuns, como eu, poderiam merecer tal deferência, mas ele julgou que eu possuía as qualificações necessárias. Primeiro eu tinha muito dinheiro, e minha fortuna foi acompanhada de seriedade absoluta, que garantia lisura dos negócios dos quais fazia parte. Porque cuidei do meu bom nome, eu conseguia coisas difíceis até mesmo para bons empresários europeus. As minhas empresas, além disso, tinham qualificação técnica. Antes mesmo do surgimento da palavra “multinacional”, eu montara uma das primeiras multinacionais conhecidas, administrei-a com técnica e com sofisticação. Isso só serviu para tornar-me mais reconhecido e rico.

Mariana: Por que você gostava de ajudar outros países, como o Uruguai?
Barão de Mauá: Não era exatamente isso: gostar de ajudar por puro gosto, embora, eu tenha feito isso algumas vezes por amar a minha nação, para fazer os políticos e a sociedade entenderem que empresário e governo poderiam se relacionar de forma altamente benéfica à nação.
O caso é que, quando eu me envolvi com o Uruguai, não o fiz porque por gosto ou por prever lucros. Eu o fiz a pedido do ministro dos Negócios Exteriores. Para os conservadores, naquele momento, era importante que eu tivesse uma sólida posição financeira, ainda mais quando os meus negócios dependiam bastante dos cofres que eles controlavam. Era lucro pra eles. É importante abrir um parêntese e lembrar que eu passei a maior parte da minha vida em conflito com os políticos e com políticas brasileiras que foram conservadoras ao extremo, não acompanhando as transformações econômicas daquele tempo. Mas houve esse momento em que fui favorecido com mudanças de princípios liberais. Essas mudanças da política econômica, nas leis - momento raro no nosso país - beneficiaram o empresário, o industrial, papel cumprido por mim. Eles estavam determinados a acabar com a escravidão e era necessário criar projetos de investimento na nossa economia, já que a maior riqueza produzida no Brasil tinha a sua origem no tráfico de escravos. Para que o projeto desse governo funcionasse, naquele momento, os conservadores me tinham como uma peça da engrenagem. Eles também tinham um grande plano do Brasil em relação aos países vizinhos. Para colocar em andamento o plano de governo, eu iria, afinal, receber a conta dos favores com que fora agraciado - e me assustar para valer. O assunto melindroso estava nas mãos do ministro dos Negócios Exteriores - o meu velho amigo maçom Paulino Soares de Sousa, conhecido por seus métodos e modos pouco ortodoxos. Para que você, Mariana, tenha uma idéia de com quem eu estava me metendo nesta arriscada empreitada: uma de suas frases preferidas era "não se poupa um inimigo derrotado, pois ele pode se levantar amanhã". Ele alimentava planos tão perigosos que acabou desistindo de trabalhar. Só em sua biblioteca, julgava-se a salvo dos espiões ingleses, franceses, argentinos e uruguaios.O plano de Paulino era transferir o foco da influência brasileira para os países vizinhos, e eu era a peça que faltava para resolver seus dilemas. Confiou-me, para o meu desespero, uma missão tão perigosa que precisa ser explicada em detalhe: a idéia era intervir no rio Prata, que estava ligado ao desenvolvimento do Brasil. O acesso por terra aos vastos territórios de Mato Grosso era complicado demais. A alternativa era o contorno via Buenos Aires e daí pelo rio Paraná acima, num percurso que gastaria um terço do tempo se fosse possível fazer as viagens. O governo argentino não permitia, nem por sonho, que navios estrangeiros navegassem por ali.
Então, deveria eu, com a minha riqueza pessoal, financiar uma guerra do Uruguai contra a Argentina. O Uruguai teria que vencer a guerra para que eu pudesse ter de volta os meus investimentos e obter lucro. É claro que o Uruguai tinha motivo de sobra para entrar em guerra com a Argentina. Em 1843, o ditador da Argentina patrocinou uma invasão de todo o interior do Uruguai - e fez as tropas pararem nas portas de Montevidéu. A cidade e o porto ficavam para os estrangeiros, mas nenhum produto do interior da América sairia por ali. Buenos Aires, assim, impôs uma espécie de cerco medieval a Montevidéu: a cidade, claro começou a definhar. Subitamente, o território do país foi transformado numa cidade vivendo sob um cerco medieval. O governo sobrevivia com a ajuda de subsídios ingleses e franceses, que mal davam para pagar as contas mais urgentes. Em pouco tempo, a cidade começou a definhar. As revoltas contra o domínio de Buenos Aires se tornaram uma constante. A luta era tão aguda que não havia qualquer espécie de lei além das armas. A ruína, como não poderia deixar de ser, chegou depressa também para o governo. Sem nenhuma alternativa de sobrevivência à vista, os governantes acabaram chegando à conclusão de que seria preferível tratar com o governo brasileiro.Justamente nesse ponto, Irineu Evangelista de Sousa foi convidado para entrar na história.
Pense na loucura do meu amigo ministro e na minha loucura: o ministro Paulino pretendia nada menos que apoiar o governo da cidade sitiada, buscar aliados no interior da Argentina, derrubar Rosas e montar governos mais sensíveis aos interesses brasileiros tanto na Argentina como no Uruguai. Havia tanto risco, tanto risco que o imperador, ao saber do projeto, julgou prudente não colocar diretamente seu governo na história. Então, eu, Irineu, deveria financiar o governo uruguaio com dinheiro do meu bolso, que seria ressarcido depois, quando tudo tivesse mudado ao sul do Brasil. Eu não disse não assim... Fiquei de estudar a proposta e fui para casa fazer contas e reflexões. A conclusão foi óbvia: se o governo uruguaio ganhasse, se os argentinos fossem derrotados, se os ingleses e franceses não se metessem, se o governo uruguaio trouxesse o progresso do país e se as contas fossem pagas, ele ganharia muito dinheiro. Mas se uma única dessas hipóteses desse errado, com toda a certeza, ele não veria de volta uma única moedinha. A meu favor, na história, tinha o apoio do Ministério brasileiro - que poderia cair a qualquer dia - e, contra, no mínimo dois países. Nesse momento, uma informação de Paulino foi crucial: o próprio imperador se comprometia com a aventura e cuidaria para que seus interesses não fossem afetados.
Bom, até ali, eu sempre tinha seguido um caminho que traçara sozinho. Havia riscos e fatores imponderáveis, mas eu conhecia, de antemão, a maior parte das dificuldades e possuía armas para enfrentá-las. Arriscar, naquela aventura, era um contra-senso, mas um contra-senso atraente. Mas Paulino acenava com o "Olimpo", o mundo raro e seguro dos eleitos do rei....Onde todos se curvavam, eu manteria a altivez.

Essa entrevista continua na próxima edição.