EDIÇÃO IMPRESSA ATUAL - Nº 90-OUTUBRO DE 2007
Mont.: Leonardo Augusto
Mariana, à frente, Heitor e Carol ao fundo



Embora esta entrevista venha acompanhada de fotos de jovens lindos, não é uma reportagem propriamente
[16/10/2006- Matéria da Edição :80 - Setembro de 2006 ]
Mariana (6ª série) gostou do que a aluna Tainá (1º. ano) fez. Sem magia, sem truques, ela também retornou ao passado através da já falada "longa carta". Dessa vez, foi um pouco mais difícil. Mariana necessitou da ajuda do escritor Jorge Caldeira que, através de muita pesquisa e empenho, desbravou todo o caminho para chegar até o Barão e Visconde de Mauá, ou seja, até o grande empresário de quem todo brasileiro deve se orgulhar - Irineu Evangelista de Sousa. Jorge Caldeira desbravou os caminhos e nós só fizemos seguir os seus passos para desfrutar dessa valiosa história - “Mauá, Empresário do Império” - e poder oferecer a você parte disso através desta entrevista, que será apresentada em duas edições, para que possamos apreendê-la melhor, valorizando cada ensinamento dado de modo detalhado e minucioso. Afinal, não é todos os dias que temos acesso a um barão do século XIX e a sua grandiosidade...para a história do nosso país, Brasil.

Mariana: Sr. Barão de Mauá, com quantos anos começou a trabalhar? Como era o trabalho naquele tempo, ou seja, entre os anos 1815 e 1889?
Barão de Mauá: Eu comecei a trabalhar com nove anos de idade. Muito jovem para os tempos de hoje, mas não para 1822. Nessa época, os meninos de mais de sete anos eram classificados no censo como rapazes. Nove anos, a minha idade, era geralmente considerada uma boa idade para começar a trabalhar de caixeiro. Saí do Rio Grande do Sul e fui para o Rio de Janeiro. E eu tive sorte de chegar com um lugar assegurado, de ser trazido pelas mãos de meu tio - o seu nome era João Batista de Carvalho, capitão de navio - que garantia o meu emprego. Poucos tinham essa regalia. Na época, eu só lamentei por que tive que me afastar de minha mãe... O meu pai morrera três anos antes. Ele era estancieiro, e eu deveria ser como ele. Era a tradição. Mas, como ele morrera, minha mãe, Mariana, deveria casar-se novamente. A família dela a pressionara muito para que se casasse. A vida nos Pampas andava muito incerta. Havia muitos roubos de gado, havia guerrilhas. Era difícil para os homens, que dirá para as mulheres... Ela se casou com um certo João Jesus e Silva, homem honesto, parecia trabalhador. O caso é que tivemos que pagar um alto preço porque ele não queria saber de crianças de outro pai em casa.
Minha irmã, Guilhermina, casou-se, então, antes mesmo de completar 12 anos. E eu fui com o meu tio para o Rio de Janeiro. A sua idéia era que eu trabalhasse no comércio. Eu tinha instrução, dada por minha mãe...Desse modo, pesando os prós, era uma possibilidade de carreira numa cidade mais civilizada do que Arroio Grande. O Arroio Grande era onde ficava a estância de meu pai... de minha família, agora de minha mãe e de seu novo marido.

Mariana: Onde o senhor nasceu e onde você morou durante a maior parte de sua vida?
Barão de Mauá: Bom, eu nasci em Arroio Grande, mas vivi a maior parte de minha vida no Rio de Janeiro. Da minha terra natal, que ficava no Rio Grande do Sul, saí antes mesmo do segundo casamento de minha mãe, após alguns anos da morte de meu pai. Mãe, pai, irmã e a fazenda passaram a ser apenas lembrança para mim.

Mariana: Qual foi a reação de sua família, quando o senhor decidiu casar com a sua sobrinha Maria Joaquina?
Barão de Mauá: O modo como pensavam as famílias, naquele século, era diferente, muito diferente. O casamento com minha sobrinha tinha consolidado uma situação que considero invejável. Num único ato, consegui colocar as mulheres que amava ao inteiro serviço da felicidade familiar, que se completava com a minha prole. Eu era daqueles homens que sentia prazer na vida caseira. Como eu já disse, eu fora obrigado a lutar sozinho na vida e lutei para juntar toda a minha família. E minha família se via bem do meu lado. Agora, sim, todos a quem eu amava viviam com muito conforto e protegidos.
Pedi a mão de minha sobrinha em minha casa, quando cheguei da Europa. Lembro-me bem da cara de surpresa de May, e o quanto minha mãe e minha irmã ficaram exultantes.

Mariana: Como era para o senhor e sua família serem vizinhos do imperador Dom Pedro II? Qual era sua relação como vizinho?
Barão de Mauá: Eu mudei para o palacete de São Cristóvão, com a minha família, em 1861. Era de um cliente meu que não tinha como saldar as suas dívidas, e a casa do vizinho fornecia ótimos assuntos para conversas. Afinal, era o palácio de São Cristóvão, a residência do próprio imperador dom Pedro II.
Minha mãe, Mariana, com 66 anos, na época, tinha imenso prazer em acompanhar o movimento. Reparava nas roupas e na carruagem de quem entrava e saía, fazia comentários sobre etiqueta, notava o tratamento dado a cada visitante que desembarcava. Estar perto do rei era para ela como viver num conto de fada.
Já para a minha irmã, Guilhermina, que era viúva também, mas das que usam preto na alma... Ela era diferente de minha mãe; só via nisso - ser vizinha do rei - motivos de tristeza que fazia questão de listar: nunca gostou da idéia de mudar para um lugar tão exposto, onde podiam ver, mas serem vistos; achava exagerado o tamanho do palacete, que parecia casa de gente que só pensa em aparecer; abominava o exame cotidiano da vida alheia que a nova varanda impunha; além de tudo, achava que a proximidade do palácio poderia me ocasionar problemas. Ela não gostava do imperador, e nós sabíamos que ele tinha prevenção contra mim. Segundo Guilherme, ele tinha inveja do meu sucesso.
Eu, por minha vez,... Bom, deixando a modéstia de lado, ninguém no Brasil havia chegado onde eu cheguei. Eu não devia nada a ninguém e esperava a compreensão e o reconhecimento do rei. Dizem que eu agia, muitas vezes, com os outros países, como se fosse o imperador... No entanto, todas as minhas negociações com o governo da Argentina, do Uruguai, minhas interferências com os empresários ingleses foram no sentido de ajudar o meu país. Eu colocava o meu amor à pátria em tudo que eu fazia.
Então, eram assim as nossas relações com o nosso vizinho, o rei.

Mariana : Explique mais sobre a sua relação política, pessoal com Dom Pedro II.
Barão de Mauá: Eu cresci na luta, era a minha realidade cotidiana. O resultado disso foi o controle de oito empresas brasileiras. Na época, existiam 10. O Banco do Brasil e a Estrada de Ferro Dom Pedro II (hoje Central do Brasil) eram estatais e, mesmo assim, deviam muito ao meu trabalho. Eu fundei o Banco do Brasil, que cresceu rapidamente e só depois foi encampado pelo estado. Os conservadores e os imperadores fizeram isso através de um ataque a mim e ao meu trabalho. Um ataque bem articulado. Já a estrada de ferro, eles tiveram a iniciativa, mas ela só andou depois que eu avalizei o governo. O empreiteiro que estava construindo a estrada de ferro não suportava mais as confusões dos dirigentes estatais e queria largar tudo. Ele mudou de idéia depois que eu empenhei meus bens pessoais como garantia da seriedade do governo. As minhas empresas eram grandes, e o meu trabalho era significativo. Não podiam me ignorar. Não podiam ignorar a minha presença na economia do Brasil. Mas eu me sentia mal correspondido; afinal eu fazia muito por este país e não recebia, por parte do governo, dos conservadores, reconhecimento à altura. Eu amava a minha pátria, mas sabia que não era correspondido com igual fervor....

Mariana: Mas o povo brasileiro reconhecia o valor do seu trabalho e do senhor?
Barão de Mauá: As obras que as minhas empresas construíam tornaram visível um mundo novo, mas os brasileiros, embora desfrutassem e gostassem disso, só admitiam em parte o seu valor. Eles gabavam-se dos trens e navios a vapor, freqüentavam ruas bem iluminadas à noite. Essas novidades reconfortavam, faziam os beneficiários sentirem-se habitantes de uma das cidades mais progressistas do planeta. Apesar disso, muitos que elogiavam o resultado do meu trabalho tinham dúvidas sérias a respeito das minhas intenções. Claro que nenhum empresário, por mais que ame o seu país, não faz empresas apenas porque gosta de trens e lampiões; eu tinha que ter lucros. Eu só tocava para a frente os meus projetos após avaliar as possibilidades dos resultados financeiros e, depois de implantados, julgava o seu valor também pelas entradas no caixa. Claro. Hoje deve ser um raciocínio banal, mas, para muita gente da minha época, que pensava como o imperador, esse comportamento revelava o grave desvio de caráter de colocar os interesses materiais acima do bem comum. Bom, desgraçadamente, entre nós, entendia-se que empresários deviam perder para que o negócio fosse bom para o estado, quando é justamente o contrário.
Eu precisava, então, provar que um indivíduo que ganha dinheiro serve ao país. Não era suficiente o resultado do meu trabalho para provar isso.

Essa entrevista continua na próxima edição. Não perca. Venha conosco dar um largo passeio até o passado.