EDIÇÃO IMPRESSA ATUAL - Nº 90-OUTUBRO DE 2007



Olha a dica aí, gente (Filme)
[20/10/2007- Matéria da Edição :89-agosto de 2007 ]
A última noite (25TH HOUR)

por Victor Cardozo (9º ano)

DIREÇÃO: SPIKE LEE
ELENCO: EDWARD NORTON, ROSARIO DAWSON, BARRY PEPPER, PHILIP SEYMOUR, HOFFMAN, ANNA PAQUIM, BRIAN COX

SINOPSE
O tempo não pára e falta muito pouco para que Monty Brogan (Edward Norton) perca sua liberdade. Em 24 horas ele será encarcerado por sete longos anos. Depois de ter sido o rei de Manhattan, Monty está prestes a dizer adeus à vida que conhecia, uma vida que abriu as portas das boates mais concorridas de Nova York, mas também o afastou das pessoas mais próximas a ele. Em seu último dia de liberdade, Monty tenta refazer o relacionamento com seu pai (Brian Cox), que jamais desistiu de seu filho, e procura ficar próximo de seus melhores amigos de infância, Jacob (Philip Seymour Hoffman) e Slaughtery (Barry Pepper). Junto com eles, também está sua namorada, Naturelle (Rosario Dawson), que pode ou não ter sido a pessoa que o entregou à polícia. Ultimamente, Monty não tem certeza de mais nada, mas, com o tempo se esgotando, existem escolhas a serem feitas.

CRÍTICA
Desde que surgiu ao grande público em Faça a Coisa Certa (Do The Right Thing,1989), Spike Lee sempre retratou Nova York, sua cidade natal, discutindo de forma ao mesmo tempo imparcial e apaixonada o aglomerado de povos e culturas da cidade, onde amor e ódio se chocam, mas também se confundem, e onde nunca é simples (ou mesmo possível) fazer a coisa certa. Sempre de maneira provocante e incisiva, Spike Lee mostra (desde Faça a Coisa Certa a O Verão de Sam) uma Nova York em estado de ebulição, como uma gigantesca caldeira pronta para explodir. Dito isso, pode-se perceber por que A Última Noite é um filme tão singular. Dessa vez a NY de Lee é cinzenta (que sempre havia sido caracterizada por cores quentes, vibrantes), acuada, soturna e traumatizada, uma cidade tentando desesperadamente sobreviver das próprias ruínas. Trata-se de encarar a mais profunda cicatriz de suas entranhas. Spike Lee descortina a Nova York pós 11 de setembro.
As últimas horas de liberdade do traficante Monty (interpretado de maneira inigualável por Edward Norton) são uma metáfora expressionista para o trauma . O doloroso trajeto de Monty captura perfeitamente a atmosfera amarga e perplexa do atentado. Na cena mais explosiva do filme, o protagonista descarrega ódio para todas as peças do mosaico cultural de NY, discursando furioso diante de um espelho pichado com um sonoro "Dane-se" (Mendigos, negros, homossexuais, porto-riquenhos, árabes, gangsters, policiais, a Igreja, Bin Laden, Jesus Cristo, e finalmente, a própria cidade). É notável como é retratada fielmente a cultura de ódio e intolerância que reina nos Estados Unidos. De certa forma, tanto os EUA quanto a cidade de NY são representados na figura generosa e errônea do protagonista. Enquanto o reflexo grita enfurecido no espelho, o verdadeiro Monty abaixa a cabeça e os ombros, atormentado e perplexo, percebendo a dimensão do ódio dentro de si. Ele consegue calar o homem no espelho, mas não consegue apagar a pichação que o trouxe à tona. Outra cena notável é a conversa entre Slaughtery (um surpreendente Barry Pepper) e Jacob (Philip Seymour Hoffman, competente como sempre ) diante das ruínas do World Trade Center (ainda estão recolhendo os escombros). É feita uma cena longa e propositalmente incômoda fixada na desolação dos escombros (o Marco Zero, como foi apelidado pelos americanos).
A Última Noite é um filme sobre reflexão, sobre oportunidades perdidas, sobre uma forma de "reenxergar" o próximo, e principalmente, sobre trauma. Após um desfecho traumático e inesperado, Spike Lee ainda deixa Monty passear numa possibilidade de redenção, de esperança, possibilidade que nós sabemos, sabemos com pesar, que é falsa. Terminamos o filme percebendo, ao final, o verdadeiro impacto do trauma. O fantasma do que foi perdido para sempre, a realidade irreversível do tempo.