EDIÇÃO IMPRESSA ATUAL - Nº 90-OUTUBRO DE 2007
"O mundo não desaparece quando você fecha os olhos."



Olha a dica aí, gente (Filme)
[09/05/2007- Matéria da Edição :88-julho de 2007 ]
Amnésia
("Memento")

por Victor Cardozo (9º ano)

Direção: Christopher Nolan
Roteiro: Christopher Nolan, baseado no conto de Jonathan Nolan
Elenco: Guy Pearce, Carrie-Anne Moss, Joe Pantoliano, Mark Boone Junior, Larry Holden,Stephen Tobolowski, Jorja Fox.

Crítica

Surgido do verdadeiro zoo que é o cinema independente americano atual, Christopher Nolan é um diretor com um estilo singular, uma proposta no mínimo interessante. Sua idéia constante é, como sempre, o individual, na qual constrói uma filmografia bastante coerente (vide O Grande Truque - seu último filme e assunto da minha última crítica - e os interessantes Insônia e Batman Begins). O universo de seus personagens tem regras próprias que são sempre levadas às últimas conseqüências. A necessidade de "explicar" seus personagens talvez seja a sua maior marca. Daí vem uma certa má vontade da crítica, que repete exaustivamente que seus filmes sempre terminam "explicados demais", como que deixando mastigadinho para o público entender. Esquecem (sem trocadilho) outra marcante característica de Nolan: seus filmes são, antes de tudo, jogos (de significados?de percepção?de ordem cronológica?), que seguem as mesmas regras dos seus protagonistas obsessivos (Leonard, os dois ilusionistas rivais e Bruce Wayne são todos eles obcecados/ traumatizados, que só conseguem continuar vivendo à custa da própria vingança).
Amnésia , o primeiro e mais elogiado filme de Nolan, apresenta-nos, de forma arrasadora, essas questões. Pra começar, é narrado na ordem inversa dos fatos (o filme começa com o que deveria ser o final, retrocedendo até o seu "começo", cada cena começa com o final da cena anterior) . O que já seria uma inteligente e original brincadeira narrativa, na verdade, é uma das mais notáveis sintonias de forma-conteúdo do cinema (independente ou não) recente. O interessante atrativo de superfície (a estilosa e empolgante narrativa fragmentada, o roteiro quebra-cabeça) existe, não como perfumaria, mas exclusivamente para e pelo filme.
O personagem principal, Leonard (Guy Pearce, competente) perdeu a capacidade de lembrar fatos recentes. Ele lembra de tudo até a pancada na cabeça, que deu início a seu problema (que não é amnésia; o título original é "Memento", que vem de expressão do latim Memento Mori, título do conto de Jonathan Nolan, no qual se inspirou o filme), mas tudo que lhe acontece depois disso é rapidamente "apagado" da sua memória. A última imagem que ele retém na memória é o assassinato da sua esposa até levar a tal pancada na cabeça. Leonard quer vingar a esposa . Cruzará seu caminho Teddy (Joe Pantoliano), um homem que diz ser seu amigo, e a enigmática Natalie (Carrie-Anne Moss). Com suas anotações, fotos e tatuagens, Leonard tenta desesperadamente deixar pistas para si mesmo, tentando o tempo todo não ser enganado, quando na verdade são as próprias verdades que ele cria que acabam o iludindo. É notável como os elementos cool, típicos das histórias de detetive, convertem-se em incontáveis simbologias que acrescentam muito ao filme: as tatuagens (a tatuagem com o nome do assassino no peito/coração simboliza a renúncia/perda de Leonard trocada pela obsessão. A tatuagem na mão "Lembre-se de Sammy Jerkins" serve para que ele não se esqueça nunca da prisão em que ele próprio se enclausurou.), as fotografias com anotações (manipulação da imagem/verdade), e por fim a própria investigação. O mais importante é que a narrativa inversa, mais do que truques na sala de montagem, é essencial para a imersão no filme, todos os simbolismos e significados estão unidos pela desorientação que nós, espectadores, dividimos com o personagem. Tudo se torna tão mais relevante, tão mais verdadeiro que parece impossível pensar nesse filme como seria se fosse feito da maneira convencional. Não que o filme deixe de ser, como o próprio diretor propõe, um jogo. Mas um jogo incrivelmente intricado e envolvente. Não Se Esqueça: AISÉNMA.