EDIÇÃO IMPRESSA ATUAL - Nº 90-OUTUBRO DE 2007



Olha a dica aí, gente (Filme)
[26/06/2007- Matéria da Edição :87-Junho de 2007 ]
O Grande Truque ("The Prestige")
Direção: Christopher Nolan
Roteiro: Jonathan Nolan, baseado no livro de Christopher Priest
Elenco: Hugh Jackman, Christian Bale, Michael Caine, Scarlett Johanson, Rebecca Hall, Andy Serkins, Piper Perabo e David Bowie.
Sinopse
Na Londres do século 19, Robert Angier (Hugh Jackman) e Alfred Borden (Christian Bale) são dois mágicos cuja amizade vira rivalidade após a trágica morte de Julia (Piper Perabo). Angier culpa Borden pelo acontecido e passa a odiar o ex-amigo. Quando Alfred cria uma mágica revolucionária, Robert fica obcecado em superar o rival e um começa a sabotar o outro, numa disputa que vai progressivamente destruindo a vida de ambos.
Crítica
Eu já tinha escrito entusiasticamente sobre "O Ilusionista" e fazendo freqüentes comparações a este "O Grande Truque". Mas depois de assistir a este excelente filme, deu para perceber porque afinal o outro ficou ofuscado. Se "O Ilusionista" cativava pela beleza, não deixa de ser uma obra menor e simples, enquanto "O Grande Truque" é um intrincado e genial quebra-cabeça, um filme inteligente e complexo (o que não tira o mérito do filme de Neil Burguer) . O diretor Christopher Nolan (dos igualmente excelentes "Amnésia", "Insônia" e "Batman Beggins"), constrói a mesma cronologia não-linear de flashbacks que o consagraram em "Amnésia", com um ótimo e absorvente roteiro, sem pontas soltas ou erros de continuidade (escrito por seu irmão, Jonathan Nolan, e baseado em livro "The Prestige" de Christopher Priest) e uma produção impecável (tanto a bela e sombria fotografia como a primorosa direção de arte foram indicadas ao Oscar deste ano).
O filme acompanha a rivalidade dos mágicos Robert Angier (Hugh Jackman, talvez em sua melhor performance até agora) e Alfred Borden (Christian Bale, impressionante). Eles são profissionais de naturezas opostas: Angier (que se apresenta com "O Grande Danton") é um showman, charmoso e carismático, suas apresentações são feitas com arte e glamour, apesar de ele usar truques antigos e tradicionais; enquanto Borden (que se apresenta como "O Professor") é sem estilo, faz os truques parecerem simples, mas é mais inteligente e suas mágicas são indiscutivelmente melhores. A amizade transforma-se em ódio depois de um trágico acidente que resulta na morte da amada de Angier durante um espetáculo. Robert culpa Alfred pelo acidente, e este é o ponto de partida para uma disputa sem limites, que porá em risco a vida de quem estiver entre eles. O confronto em cena de Jackman e Bale, dois grandes atores, é um dos maiores méritos do filme. O elenco de coadjuvantes também é ótimo: Michael Caine como o engenheiro Cutter, uma espécie de ponto de equilíbrio entre os dois rivais; Scarlett Johanson é a deslumbrante assistente de palco; David Bowie faz uma ponta como o cientista Nicola Tesla, peça chave da história, e Andy "Sméagol" Serkins é o assistente de Tesla.
A história é contada alternando o ponto de vista de um rival para o outro, a cada cena a dúvida sobre quem é o verdadeiro articulador por trás de tudo cresce de maneira vertiginosa. É bom ressaltar aqui a habilidade de Nolan na montagem cuidadosa do enigma que é a trama (que como eu já avisei, não segue a ordem cronológica), prendendo a atenção a cada reviravolta.
O filme parece seguir os três passos dos shows de seus protagonistas ("A Promessa", "A Virada" e "O Grande Truque"). Está pronto o terreno para uma fascinante análise do próprio cinema, que, afinal, não é diferente de um espetáculo de ilusionismo: trata-se de criar uma apresentação, uma distração, para que a platéia não perceba o verdadeiro truque que ocorre por trás, longe da nossa vista. "O público sabe a verdade", mas parece gostar de ser iludido.
Alguns críticos disseram que o final era explicativo demais, subestimando a inteligência do espectador, estragando a graça, no maior estilo "Mister M". Eu pessoalmente discordo. Este filme é uma obra de um diretor amadurecido, que como tal, não cometeria um descuido desse tipo. A minha leitura é que o final tem mais a ver com a obsessão de Angier e Borden, que obviamente explicariam seus planos minuciosamente e com orgulho, e, ao mesmo tempo, com o nosso desejo de saber como a ilusão é feita, o fascínio do que estava bem diante dos seus olhos, como fica claro no epílogo de Cutter: "Mas vocês não prestarão atenção. Vocês não querem saber. Não realmente. Vocês vão querer ser... enganados."
A ilusão, seja na mágica ou no cinema, nunca acaba realmente.
por Victor Cardozo (9º ano)