EDIÇÃO IMPRESSA ATUAL - Nº 90-OUTUBRO DE 2007



Síntese de uma impressão sobre a morte
[06/06/2007- Matéria da Edição :86 - Abril/Maio de 2007 ]
Até agora, só fui a dois funerais. Entre eles, houve um intervalo de sete anos. O primeiro foi o de um colega de trabalho que morreu com a idade de Cristo; o segundo, o de uma senhora idosa. Dois enterros distintos, tanto pelos atributos dos falecidos quanto pelas pompas das cerimônias. Não os conhecia bem e, conseqüentemente, meu comparecimento não passou de mera formalidade. Portanto, estava menos propenso às emoções que, em momentos como esses, tocam os mais íntimos e, sendo assim, fui apenas testemunha da dor de outrem. Não obstante a dessemelhança visual, as duas ocasiões provocaram em mim a mesma idéia.
Nos velórios, ao redor do caixão, existe um perímetro em que predomina um grande silêncio, o qual só é quebrado por aqueles mais transtornados. Todavia, é fora deste círculo que mais claramente entendemos o que a morte alheia nos provoca. Eu era todo ouvidos aos comentários feitos a certa distância do corpo, tais como: "a vida é tão fugaz"; "quando eu morrer, quero ser cremado"; "espero não sofrer no momento da minha morte"; "querida, não chore, pois ele(a) agora está num lugar melhor, como nós um dia também estaremos"; etc. O fato é que a maioria dos presentes estava pensando em sua própria morte. Essa atitude não pode ser confundida como sendo egoísmo ou insensibilidade diante do préstito fúnebre. É apenas uma tendência natural humana. Pois a imagem da morte provoca no homem emoções não percebidas antes, as quais têm muito mais a ver consigo próprio do que com o morto.
Todos os animais instintivamente lutam por suas vidas. Mas só o ser humano tem consciência de sua mortalidade. E é justamente essa percepção do finito que tanta angústia nos provoca.
Por outro lado, somos capazes de imaginar um mundo onde não estaremos mais vivos. A idéia da redenção, presente em todas as religiões, faz com que muitas pessoas esperem sua morte com ansiedade, em vez de sentirem medo dela. Para Sócrates (470 ou 469 a.C. - 399 a.C.), a morte era um bem. Haja vista que, para o grande filósofo, ela só poderia ser uma destas duas coisas: "ou o morto é igual a nada, e não sente nenhuma sensação de coisa nenhuma; ou, então, trata-se duma mudança, uma emigração da alma, do lugar deste mundo para outro lugar".
Na primeira ou na próxima vez em que for a um enterro, faça o que esperam que você faça. Mas não deixe de olhar ao seu redor e fite os semblantes daqueles que, como você, também estão à espera da morte.
por Ivã Antônio