EDIÇÃO IMPRESSA ATUAL - Nº 90-OUTUBRO DE 2007



Crônica de uma cidade adoecida
[20/03/2007- Matéria da Edição :84 - Fevereiro de 2007 ]
O relato a seguir não diz respeito a meu bairro. Moro numa área onde ainda existe a ilusão da tranqüilidade, onde se acredita estar protegido. Mas se formos pensar, essa ilusão ainda paira também sobre a cidade. O que relatarei em seguida aconteceu à vista de muitas pessoas que a tudo assistiram e nada fizeram. Mas elas não são muito diferentes de (quase) todos nós, que assistimos mecanicamente a carnificinas todo dia, nos noticiários, sem manifestar emoção. Se antes sabíamos que, do outro lado do mundo, pessoas sofriam, matavam e morriam ao descaso, hoje fingimos não ver que isso acontece no nosso quintal.
Não quero eu, que sou apenas um garoto recém-adolescente, causar algum alerta ou chamar atenção. Não tenho essa pretensão. Quero apenas registrar (mais um registro que ninguém lerá). Não sou bobo (até a esperança é banalizada!) a ponto de achar que, num mundo em que é permitido que crianças espanquem crianças, este lembrete seja notado. No máximo soará estranho que eu não esteja, por exemplo, vendo MTV, ou dando em cima de 200 garotas por festa e bebendo, e sim sentado, escrevendo. Sei menos do que gostaria, mas sei mais do que pensam. Apenas não vou me fingir de cego, não hoje. Mas também me omiti, ainda sou (espero que não para sempre) um inativo. Só pretendo registrar esse vírus que assola, não só a minha, mas todas as cidades do mundo, que sangram violência em suas calçadas. O inferno, senhores, não está longe...
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8 horas da noite. Ponto de ônibus. Rua movimentada. As pessoas andam... 9 anos, mulato, careca, magro, sujo, pequeno e vestido em trapos, passa com grande pressa pelo ponto. As pessoas olham. Dois outros garotos de 11, 12 anos passam com mais velocidade, ainda na mesma direção, e são idênticos ao outro, exceto que são maiores, mais fortes e ameaçadores. Um fuma um cigarro, e o outro carrega uma pedra... As pessoas olham. Os maiores vão até o menor. Gritam, ameaçam, praguejam. O menor responde com um gesto obsceno. " - Cê tá morto, filha-da-p...!" - disparou o que fumava. O menor corre, tenta, foge. Em vão. O que fuma pega a pedra do outro, enquanto este segura o menor pelos braços. Espanca-o e dá pedradas. O menor chora e grita. As pessoas olham. O que estava segurando solta o menor, que cai no chão chorando muito. As pessoas olham. Os dois maiores dão chutes e pontapés no garoto no chão, que chora alarmantemente. Chora tão alto que abafa os gritos vindos do parque ao lado, ou os barulhos de motores do trânsito. Tudo que se ouve é seu grito e os agressores.
As pessoas olham.
Mulher de 39 anos aproxima-se, ao lado um filho de 14 e outro de 9, que a seguem apreensivos.
-Ei, que é que é isso aí? Pára com isso! PÁRA COM ISSO!
Eles continuam.
-Vô chamar o guarda, viu! P-Á-R-A COM ISSO!
Eles param... O da pedra aponta para a senhora, furtivamente. O filho de 14 anos se aproxima mais da mãe, para protegê-la de um ataque.
As pessoas olham.
Os maiores vão embora. 39 anos e 14 anos suspiram aliviados. O menor levanta em total desalinho e segue na direção em que os outros foram.
Para apanhar mais.
Para aprender a bater.
Carro estaciona. Mulher de 39 e filhos entram. O carro parte ."Que mundo, meu Deus!" - resmunga um velho, sentado no ponto. O ônibus chega e quem esperava, levanta-se e entra.
As pessoas andam.
por Victor Cardozo
(1º ano do Ensino Médio)