EDIÇÃO IMPRESSA ATUAL - Nº 90-OUTUBRO DE 2007



Férias
[15/08/2006- Matéria da Edição :78 - Junho de 2006 ]
O clima de férias veio tomando conta da escola; a adrenalina parecia se intensificar servindo de combustível aos tantos projetos de entretenimentos. Eram vários os planos sendo elaborados nos corredores, nos intervalos entre uma aula e outra. Muitas coisas são pensadas para o recesso da rotina escolar: cinema, amigos, viagem, livros. Livros?! Livros. Afinal, estamos falando de alunos da Nossa Escola.
Claro que, em tudo isso, eles envolvem o outro: o outro, amigos do dia-a-dia; o outro, família; o outro, novos amigos; o outro, amigos que se fazem a distância, "no espaço e no tempo". Sem os outros, a nossa vida, de fato, fica um pouco sem graça, sem afeto, sem conforto e calor.
Segundo uma pesquisa apresentada nesta edição do Nossa Voz, conviver faz bem à saúde e prolonga a vida. Mas amigos não são cultivados apenas durante as férias, claro. Cultivam-se principalmente nas escolas. E entretenimento? Tampouco - ensina Lina, 8ª. série - é algo que se tem somente nas férias, a não ser nesse mundo de representação mais simplista que se torna fútil e, no final, muito aborrecido. Nele, o entretenimento só existe no shopping, no parque, na praia. A aluna Lina, numa reflexão mais profunda, revoluciona esse conceito, superando, então, a visão dicotômica e superficial que predomina no senso comum.
Ao discutir sobre como se organizar para os estudos, ela conta que algumas disciplinas, às vezes, lhe parecem difíceis, mas, quando "se entretém" com o que lê ou estuda, tudo fica mais claro e compreensível. A dificuldade, assim, é superada. Eu insisto com ela na palavra "entreter". Ela a confirma e amplia o seu significado. Em seu mundo, essa palavra é mais que se divertir e recrear-se; significa também ocupar-se com algo, envolver-se, de verdade, com o que está fazendo. O seu entreter a leva à compreensão dos conceitos mais complexos de filosofia. Assim como o entreter-se de outros colegas seus - pude observar isto depois de seus esclarecimentos - significa resolver os complexos desafios de matemática.
Eu gostei disso. Gosto de saber que os alunos superam essa visão simplista de que há o momento de se divertir, de se distrair, e há outro em que o indivíduo não se diverte nem se distrai; só se ocupa do conhecimento. Mas o tédio não advém disso; advém mesmo é da superficialidade com que a pessoa se ocupa das coisas. Se existe a paixão, a alegria mais consistente - que é o que faz a gente achar que a vida vale a pena -, isso acontece nas férias, no trabalho e na escola. Acontece quando se aprende a dar mergulhos mais profundos, mais comprometidos realizando, assim, os projetos a favor das melhores e fecundas relações com o outro, com o mundo e também com o saber. Aliás, o mundo, o outro e o saber estão intimamente relacionados esteja você na escola, no cinema, em viagem ou nos livros.

Edmê Cristina