EDIÇÃO IMPRESSA ATUAL - Nº 90-OUTUBRO DE 2007



A rica rotina escolar
[06/06/2007- Matéria da Edição :86 - Abril/Maio de 2007 ]
Eu gosto da rica rotina escolar, da rotina que a custo se impõe como tal, porque, a cada instante, tropeça em algo. Daí mantê-la de pé ou levantar de novo só com muita plasticidade e com o equilíbrio de Isis, que literalmente voa quando baila. A rotina escolar tropeça nos exaustivos dias de ensaios para os jogos internos. Os alunos, às vezes, também querem desequilibrá-la com suas intermináveis queixas sobre provas difíceis e injustas. Queixas tão comuns diante de resultados frustrantes quanto desacreditadas pelos que a fazem, porque felizmente os nossos alunos sempre crescem. Às vezes, tropeça nos rigorosos ensaios musicais com as maestrinas Juliana e Corina; nos projetos de ciências, desenvolvidos com meses de antecedência; no caderno de poemas à moda antiga. Manuscrito e com a contribuição de uma calígrafa - profissão desconhecida pela maioria ou simplesmente esquecida. A rotina escolar também tropeça e se remonta nos alunos que crescem, que lêem, que contam suas histórias e que querem publicá-las no Nossa Voz, aumentando, assim, o nosso time de bons escritores. Outros tropeços vêm para aliviar o nosso cansaço, fazendo-nos rir muito quando damos uma parada para ouvir as boas piadas de Paula Wolf, de Thiago Oliva e Gustavo Machado.
Estar numa escola é sentir transbordar vida; embora, algumas vezes, canse-se muito... porque "Quando se vê, já são seis horas! /Quando se vê, já é sexta-feira.../Quando se vê, já terminou o ano.../Quando se vê” (Mário Quintana), os nossos pequenos enviam convites de formatura ou se apresentam de forma bem inesperada: “você se lembra de mim? Sou filha de...” Mas antes que termine os dados que crê identificá-la, pulam da minha memória aqueles mesmos traços, só que numa garotinha de seis anos, que um dia foi morar em Salvador, depois no Rio e, agora, no corpo dessa linda mulher. Quando se vê, sobem alguns rapazes de bermuda, camisa larga, pêlo no rosto mal raspado, "no maior estilo", rumo a minha sala, e alguém os anuncia: Jade e Thiago estão aqui.
Eles entram, e eu não sei o que retomar ao lado desses moços, senão as lembranças e algo que parece ser saudade. A última vez que os vi foi em meio ao alvoroço - rotina é um nome impróprio - escolar. Eu os colocava no colo, dava-lhes bronca, contava-lhes história, ensinava-lhes contas e bons modos.
Os professores, no entanto, têm o maior dos privilégios: o de viver em meio a isso, que a custo se impõe como rotina, de tantos que são os embaraços, os enlaces e os muitos "nós" que produzem em nossas cabeças, diante das crianças e dos jovens, que nunca são iguais. Nem a si mesmos, já que se transformam sempre e tanto. Quando, então, ficamos tentados a repetir os versos de Gullar: por que não lhes dera/ maior atenção/ se há tantos / e tantos anos/ não via as crianças/ já que /agora estão os três/ com mais de trinta anos, a nostalgia se interrompe com o dinâmico e ruidoso crescimento dos outros meninos e meninas em aula ou nos intervalos. Com muitos desses atropelos, forjamos o jornal Nossa Voz. Quiçá, porque assim os retemos um tempo maior na Nossa Escola, ou melhor, na nossa história... quando se vão.
Edmê Cristina