EDIÇÃO IMPRESSA ATUAL - Nº 90-OUTUBRO DE 2007



ENSINO MÉDIO NÃO É CURSINHO
[07/12/2006- Matéria da Edição :81-outubro de 2006 ]
O ensino médio dos colégios garante a melhor aprovação no vestibular - de 60% a 100% - enquanto colégios-cursinhos garantem 30% em seus picos de aprovação. Há quem aplaude, no estilo "me engana que eu gosto", e a adesão é alta.
Nada temos contra os cursinhos de vestibulares. Nasceram com seus objetivos mais próprios para os jovens acima de 17 anos, ou como uma espécie de reforço para quem faz o ensino médio. Temos, no entanto, algo a dizer contra a atitude de transformar o ensino médio em cursinho promovendo assim o adoecimento de nossa juventude na medida em que essa transformação exige a fragmentação dos alunos - pesquise para ver os consultórios psicológicos... O estudante não é visto como ser integral: ser com espírito; ser racionalizável, embora parcialmente; sempre em processo de auto-estruturação; com muitas possibilidades e muitos caminhos a escolher. Os estudantes são pessoas que estão se fortalecendo para as escolhas, construindo a sua liberdade e a responsabilidade que a ela é inerente. Estamos, então, tratando de pessoas que queremos soberanas de seus próprios valores e de suas cabeças, e não carneirinhos consumidores. Por isso mesmo, a professora Aglacy tem afirmado, em recentes entrevistas e nesta edição, que, para o aluno da Nossa Escola, mais do que estar na Feira do Livro, foi importante ter participado de tudo que levou à sua construção. Assim também quem a visitou percorreu outro caminho para estar lá com o interesse genuíno pelos livros. Não como leitores pró-forma, ou seja, apenas como consumidores. Passivos.
Iniciamos o texto criticando escolas, mas creio ser mais justo deslocar a crítica para a sociedade, de modo geral, que pede à escola a sua transformação em cursinho. Ouvi de um livreiro que escolas dispensam-no com o seguinte argumento: desde quando livro e biblioteca atraem alunos para a escola? Como conseqüência dessa visão, junto a outros fatores, lamentamos hoje - nós os brasileiros - o vexame em ocupar os últimos lugares na avaliação do PISA - Programa Internacional de Avaliação Comparada sobre as habilidades de ler e interpretar - largamente divulgada na imprensa mundial -, realizada com 100 países. Ouvi também de uma mãe, que, ao questionar coerência metodológica de uma escola, obteve a seguinte justificativa: “tudo bem que pedagogicamente é algo esdrúxulo, mas é o que a sociedade quer e é o que eu faço”. É a tal da sobrevivência. Não justifica o sacrifício da ética... mas para a cabeça de muitos, sim: sobreviver é preciso, e não vêem outro modo. Mas voltando à sociedade... Por que ela quer assim? Seria para fazer de conta que o seu filho é grande? Seria para não ter que cuidar, que discutir os seus horários de internet, os seus horários de estudo, as saídas no final de semana, o respeito ao outro, o compromisso, a agenda etc. Seria para não se dar o trabalho de exercitar essa função denominada de impossível por Freud: educar? Mesmo após um exaustivo dia de trabalho? Missão impossível, mas da qual não podemos fugir. Não é incomum ouvir "prefiro os diretores de escola que estão distantes dos alunos. Porque assim eles os respeitam". Respeito e distância são causa e conseqüência? É simples assim? Ou será que o olhar minucioso, próximo implica ver o outro, o filho, e vê-lo solicita trabalho pesado demais para a sociedade hedonista? Ou será por puro engano? O que não torna a família menos responsável. Isso porque ser pai, ser mãe, ingenuamente ou não, foi uma opção. A vida nunca desculpa os ingênuos.
Eu, de fato, não consigo crer que as pessoas não sabem que estar por inteiro, numa escola, signifique mais apreensão de conteúdo. Embora ouça isso quase que diariamente. Nenhum leitor do Nossa Voz ignora, ou de tanto ler ou por bom senso, que os conteúdos são definidos por Lei e que toda escola responsável cumpre-os por obrigação, por acreditar... por sobrevivência. Acredito ser sensato dizer que é óbvio entender que os cuidados que uma escola regular oferece ao Ser aluno - sem reduzi-lo a um treinador de exercícios de vestibulares, a um memorizador de macetes - não sacrificam em nada o seu compromisso com o saber, que é o objetivo primeiro de toda escola. Ao contrário, otimiza o trabalho.
Arrisco-me a dizer que muitas famílias exigem, querem, buscam não a escola, mas o cursinho para não terem que cuidar do Ser aluno. Esse é trabalhoso. Sem querer todo esse trabalho ou o olhar que denuncia a necessidade da presença educadora, transformam os seus pobres filhos em pobres de espírito, em meros consumidores, passivos. Compram a escola como fazem com aquela interminável quantidade de brinquedos caros que aparentemente aplacam a culpa de não ser o pai inteiro, esforçado, que todo filho deveria ter. Mesmo após um dia todo de trabalho e de luta. Afinal, "a firmeza, meus filhos. Fôlego e paciência, a gente sempre tem - é só requerer e repuxar, mais um dedo e outro dedo redobrado" (Guimarães Rosa).

Anna Maria Fidelis Luis Mariconi