EDIÇÃO IMPRESSA ATUAL - Nº 90-OUTUBRO DE 2007



Quando um jovem vira homem
[28/02/2007- Matéria da Edição :83 - Janeiro 2007 ]
Outro dia, eu li algo assim: o que há de mais precioso no homem não vem da ciência; são as virtudes que verdadeiramente abrem as portas para o saber. De início fiquei meio confusa, mas impressionada. Remexi na minha memória para entender melhor o que me pareceu uma verdade... dessas verdades de que só nos damos conta quando a surpreendemos em sua forma nascente. Como tudo que causa impacto, desafia-nos e faz a mente funcionar. Por isso minha memória trouxe à tona uma outra máxima de um outro autor: "O homem é aquele que julga". Dentro dessa mesma linha, convido-os a pensar comigo. O homem tem os seus desenhos delineados por valores: os desenhos de seus sonhos, de suas ações, de seu modo de ser, não é mesmo? Ou há elementos mais importantes que os valores para darmos sentido à nossa vida, para definirmos as nossas ações? Na tarde daquele mesmo dia, a direção de uma escola de Uberlândia, Minas, relatou-me pelo msn a decisão de um aluno que acabara de ser reprovado e que estava muito infeliz por isso. A família, então... imaginem a tristeza. O desenrolar desse caso, contado e recontado com entusiasmo, acabou dando sentido a esta idéia que buscava luz na minha cabeça - são as virtudes que verdadeiramente abrem as portas para o saber. Ainda mais quando você a contrapõe com um mundo em que as facilidades são cultivadas, proporcionadas aos jovens em detrimento de sua saúde moral, de sua saúde afetiva ... sem o menor pudor ou consciência.
Como foi a tal história então? Todos sabem que se o aluno reprovar, ele sai da escola, foge dos colegas, renega, invalida tudo e qualquer coisa positiva construída durante a sua vida escolar, vai atrás de se salvar da reprovação através do sistema de dependência adotado por muitas escolas. Faço aqui uma ressalva: é legítimo quando se respeita isso como uma chance dada e quando o aluno se agarra a essa chance exigindo de si mesmo o se carregar mais pesadamente do que se carregou no ano anterior, ou seja, que se implique e se responsabilize pelo próprio aprendizado. Desse modo, o aluno estará de fato, com muito esforço, buscando a sua recuperação. Infelizmente não é assim que acontece. Os estudantes e as famílias interpretam essa oportunidade como mais uma facilidade dada e chamam as essas escolas que adotam o sistema de dependência de escolas de segunda categoria. O que poderia ser um retorno à saúde de modo, talvez, menos traumático, é o recrudescimento da doença, ou seja, a resposta, quando se quer "duvidar de seus direitos à tarefa". É o recrudescimento da folga crônica da juventude moderna, que todos bem conhecem. Boas escolas, professores generosos têm sacrificado o seu bom nome ao possibilitar essa oportunidade aos jovens. Causa-me um profundo pesar que, diante dela, o primeiro que se faz é difamar, desprezar essa mão que se lhe estende e usá-la, não para se resgatar, mas para fragilizar-se ainda mais, afastando de si o melhor presente que a vida pode nos dar: "a sua tarefa de volta".
Adio um pouco mais a fala sobre o "jovem que virou homem" diante dos olhos surpresos de toda uma comunidade escolar. Sei que corro o risco de tornar-me enfadonha, mas o objetivo é colocar, sobre o seu ato, a luz que lhe faz jus, principalmente nesses tempos em que os pais prometem aos filhos o paraíso todinho... comprado no shopping. Passo, então, a contar um fato corriqueiro entre escola e família. Numa instituição bancária qualquer, um senhor dirigiu-se ao gerente, seu amigo, e disse:
- Estou tão desconcertado hoje. Tenho uma grande amiga e sócia cujo filho é aluno de minha esposa, e ela o reprovou. Parece que não há o que fazer. O garoto vai mesmo perder o ano letivo. Que coisa, viu... estou me sentindo desconfortável. E daqui a pouco, devo encontrá-la aqui.
Outro senhor, também professor, presente no local, embora não conhecesse o marido desconcertado, por identificação com o relato, fez-se íntimo e quis também desabafar:
- Isso não é nada. Constrangimento, eu passei com o filho do meu melhor amigo. Amigo de infância... O seu filho é meu aluno. Eu pedi para toda a classe que se dividisse em pequenos grupos e fizesse um trabalho sobre micro-empresa, que é justo a disciplina que eu ministro. Eles deveriam fazer uma abordagem "in loco", examinar todos os procedimentos e toda a estrutura da micro-empresa e depois produzir um relatório descritivo discutindo os conceitos aprendidos em minhas aulas.
- E então?
- E então, meus amigos, eles escolheram uma empresa de grande porte. Uma verdadeira rede de empresas e fizeram um trabalho que não correspondia nem ao nome da disciplina. Claro, não tinha o que fazer, reprovei o grupo e, entre os elementos do grupo, reprovei o filho do meu melhor amigo.
- E o seu amigo? - Quis saber o marido da professora.
- Com o meu amigo, estou adiando o encontro, mas o filho veio até a mim e pediu explicações. Daquele jeito...: "Mas tio, como assim, o senhor me reprovar? Logo quem... Vê aí, tio, o que se pode fazer". Bom, eu expliquei, claro. Pacientemente... mas não havia o que fazer.
- E o garoto? - Perguntou o gerente.
- Ficou indignado!
- Como assim? Com você?
- Não, comigo não. Quanto a mim, ele só quis me convencer de que sabia bem a diferença entre uma rede empresarial e a micro-empresa e por isso eu deveria passá-lo. Até ensaiou uma pequena exibição de seus conhecimentos. Ele ficou indignado mesmo, foi com as suas colegas de equipe, que fizeram todo o trabalho. Ele era inocente naquele equívoco flagrantemente grosseiro. Não havia participado... aliás, ele sequer sabia o título dado ao trabalho. Eu o mantive reprovado, e ele não entendeu nada. Achou uma desconsideração, eu creio... não me cumprimenta mais.
Depois de ilustrar o que é uma mentalidade disseminada pelo país a esse respeito, volto ao aluno que se reprovou na escola do triângulo mineiro. Com ele os fatos se desenrolaram de outro modo. Sua mãe chamou-o, após levá-lo à escola para agradecer o tempo dedicado a ele e para desculpar-se por não ter feito jus ao esforço dos professores. Perguntou-lhe o que fazer, então, com a sua reprovação, mostrando todas as possibilidades - incluindo a de pagar a matéria. Com dor, ele admitiu na escola, diante da família, que brincou e que tinha muitas lacunas de conteúdo. Parece simples, coerente, não é mesmo? É simples, é coerente, mas é absolutamente incomum. Segundo os educadores, isso é mesmo surpreendente. São inúmeras as famílias que argumentam sobre o dinheiro investido. Depois de um enorme esforço para fazer entender que todo o dinheiro do mundo não compra o que ela quer, o passo dado mais comumente é buscar todos os possíveis erros na escola, nos professores - estes são questionados em sua dignidade, em sua didática - e por fim, até o valor daquilo que está sendo ensinado para a vida do garoto se coloca em pauta. Um enorme exercício mental, portanto, se faz em prol de argumentos que não permitem que a justiça se cumpra, que o bom senso prevaleça, que a realidade se imponha. Por isso é que, quando alguém de 15 anos diz: Errei, quero a melhor forma de reparação, quero o meu bom nome reabilitado diante dos meus professores, da minha escola, da minha família e de mim mesmo, muita gente se emociona. Isso não é só surpreendente, mas merece ser comentado com muita admiração. Incomum e corajoso. E é assim que um menino vira homem, um bom homem, um homem forte, saudável e íntegro. No cultivo de seus valores, abrindo as portas para o saber e as dos nossos corações para a fé em uma juventude mais tenaz e ética.
Anna Maria Luis Fidelis Mariconi