EDIÇÃO IMPRESSA ATUAL - Nº 90-OUTUBRO DE 2007



Invasões Bárbaras nas instituições escolares
[16/08/2006- Matéria da Edição :78 - Junho de 2006 ]
Num jantar, sentada entre amigos e conhecidos, eu ouvia uma conversa cujo tema central era disciplina nas escolas. Ali, só ouvindo, contendo a custo um certo desassossego emocional, eu me vi tomada por um profundo sentimento de diluição - pelo puro esforço - não no espírito do grupo, não no estado de ânimo com que cada palavra era dita, com que cada frase era pronunciada, mas no seu efeito repressor. Era um estado de ânimo tal, regado a vinho - o meu; o dos outros era a cerveja - , a boa comida e a sorrisos, que fez fenecer em mim os valores mais sagrados nos quais venho pautando as minhas ações nessa área, na área da disciplina. Eu até quis retrucar - afinal eu estava sendo convidada a falar - mas, comigo, eu senti diluírem também os meus argumentos e qualquer vestígio de indignação que me é próprio diante de tantos ruídos e falatórios que simulam grosseiramente concepções de uma verdadeira e refinada educação. Naquele momento, naquele grupo, a reflexão e a forma não significavam coisa alguma. Quando alguém se dirigia a mim, e que só sorrir - sem achar a menor graça - fosse inadequado à expectativa do meu interlocutor, eu falava, mas era qualquer coisa, sem sentido e a contra gosto. Na verdade, eu resmungava impotente, diante daquele diálogo irracional e ao mesmo tempo tão animado, deixando-o seguir seu curso caudaloso e incontido. Não oferecia resistências. Eu tenho dessas gentilezas.

Ouvia, ouvia...trancada em um silêncio interno...e gradativamente externalizava-o. Ouvia as pessoas dizerem: "adoreiii... quando ele arrastou à sua presença o garoto que pintara o cabelo - sabe-se lá de que cor -, colocando-o contra a parede: 'ou repinte hoje mesmo, ou só compareça a essa instituição após repintá-lo' ". E quando, então, "convidou uma garotinha de seis anos" a desfazer os cabelos cuidadosamente trançados? E as presilhas, laçarotes, prendedores ... aconselha a direção: só na cor do uniforme - acrescenta uma meiga senhora. Eu quero vomitar: é o vinho. Em meus conhecidos e amigos, no entanto, o efeito de suas bebidas era só sorrisos. As suas certezas aumentavam na proporção dos relatos e no inverso do bom senso. Mais relatos, mais proibições: proibiu afetos, proibiu flores, proibiu beijos e proibiu as cores...no cabelo. O cabelo parecia ser o alvo preferido. Se proibiram a violência, aí sim, "tá" justo. Mas de violência, de respeito, de reflexão, ninguém falou. Só sei que proibiram tanto, tanto ... até que um dia, alguém explodiu o banheiro colocando em risco algum imprevidente que ali pudesse estar para fazer xixi. Felizmente ninguém ficou na mira dos cacos de porcelana e do que pudessem estar melados. Eu esqueci mesmo foi de perguntar se era proibido também beber água. Afinal, assim ninguém iria ali se aliviar. O que eu sei é que não rasgaram a pele de ninguém ou algo mais profundo, como faziam com toda e qualquer iniciativa que ameaçava o processo de normalização. De massificação. Sei também que não mataram ninguém. Talvez, mataram..., mas só de raiva, os responsáveis por aquela instituição. Hi, hi! É o vinho. Como isso foi interpretado? Eu quis saber. Não perguntei, mas eles falaram. Claro, aquele ato só podia significar uma coisa: eram necessárias mais proibições. Tanto esforço e não haviam proibido o suficiente para obter a mais perfeita disciplina. Foi aí, então, que descobriram, creio eu, a serventia da criatividade da garotada para se ter mais o que proibir. E assim os educadores seguiram bem. Seguiram no seu pleno exercício de força e autoridade. Esvaziando os atos mais criativos, esvaziando outros saberes que não eram aqueles que fortalecem e que reforçam o seu poder. Eu ali só ouvindo... sem sentir nem falar, a não ser o efeito do vinho. No estômago.

Mas... em casa... eu voltei ao meu normal e passei a me perguntar, movida, de início, por uma tímida indignação com o meu gentil silêncio, diante daquele grupo eufórico, carente de lógica e cheio de certeza. Eu estava mesmo era perplexa com o meu silêncio interno. Para romper com ele, iniciei um diálogo interno sobre o que houve com a disciplina tão fundamental na construção da ética, do fazer funcionar, da estética... enfim, eu me perguntei sobre aquela "disciplina" que viabiliza as relações mais produtivas, mais criativas e até os afetos. Em casa, só em casa, após as perguntas, de cabo e quase a rabo, ela veio toda à minha cabeça. Veio a idéia da disciplina bem pensada, a que favorece o ato de realizar os desejos mais singulares, que se transformam em projetos, que não são bestiais, que tem forma...e que resulta não em cacos de porcelana pelos ares, mas na construção de algo: da arte, de saberes bem compreendidos, porque bem fundamentados. Lembrei-me de que ela sempre termina em estética, que passa pelo silêncio para ajudar a refletir, que traz o diálogo na hora de construir. Perguntei-me também pela paixão com que sempre a defendi, assim como sempre defendi os caminhos mais claros e objetivos no exercício da autoridade. Separei o joio do trigo e discerni o que de verdade delineia rumos para os projetos mais singulares, aponta para as técnicas mais apropriadas e também mais humanizadas. Discerni, com mais serenidade, o que tem sempre como produto algo novo, a auto-estruturação, um modo de ser mais original e civilizado. É essa a disciplina que se internaliza, porque faz sentido, e faz sentido porque se discute e propicia a construção de valores mais próprios, retirando assim o homem da sua condição de carneiro sem pastor, como vive o frágil homem moderno. Daí eu pensei comigo: durante aquele jantar, Sócrates deve ter se contorcido em seu túmulo, vendo a sua razão se diluindo na mais pura barbárie. Retomei o meu sossego e deixei de me culpar por aquela desordem temporária. Foi só um efeito colateral da minha exposição àquele grupo. Voltei forte e tranqüila para a harmonia do convívio com o espírito e com a aparência que damos às coisas e principalmente, conciliei-me com o verdadeiro e com o refinado conceito de educação. Da educação para o saber, para a arte e para as relações. Cada vez mais claro fica que o estado de ânimo sem o bom senso finaliza na mesma barbárie, assim como a razão sem o espírito - dionisíaco - ou morre ou também se finaliza na mesma barbárie, patinando na ilusão, sem nunca alcançar o supremo - a estética apolínea suprema. Só mesmo numa educação tosca - na barbárie - temos presilhas na cor do short, cabelos sem trança, sem flores, sem cores... sem diálogo, sem respeito aos afetos e à ação criativa.


Anna Maria Fidelis Luis Mariconi