EDIÇÃO IMPRESSA ATUAL - Nº 90-OUTUBRO DE 2007
Clouse Marinho
Aglaé Fontes na II Feira do Livro, encantou o público com suas histórias.



Quanto me dão por uma idéia?
[23/11/2007- Matéria da Edição :90-outubro de 2007 ]
A palavra FEIRA nos remete a um passado muito distante.

Na sua origem, a palavra vem do latim feria, que significa dia santificado, feriado. Em Portugal, de quem aprendemos a palavra e o costume, diz-se: feira. Qualquer pessoa sabe que as feiras são locais públicos onde se vendem mercadorias diversas. Segundo pesquisas sobre o tema, desde 500 a.C. que na cidade de Tiro, as feiras já eram realizadas como espaços destinados ao comércio, sendo por isso local de encontro dos mercadores com seus produtos.

Também nós herdamos da contribuição ibérica o costume de fazer nossas feiras em dias determinados, atraindo compradores dos seus variados elementos. Nem mesmo o advento dos mercadinhos (que são feiras entre paredes) conseguiu acabar com o sucesso das feiras, que são livres não apenas no nome, mas no que oferecem.

Voltando ao período medieval, vemos as feiras presentes mesmo nos tempos de guerra, como um espaço destinado a compra, a troca.

Espalhada no mundo, as feiras ganharam formas específicas, e algumas são até famosas. Como exemplo, temos a Feira de Franckfurt, a Feira do Automóvel, a Feira da Uva, a Feira da Moda, e até a Feira de Caruaru, cantada em versos e música.

Do luxo até as quinquilharias, as feiras se alimentam e alimentam os desejos dos compradores. Assim foi e assim é, porque, em todas as cidades do mundo, as feiras têm seu dia de celebração e de ofertas.

Dia de feira é, de certo modo, dia de festa. Dia de encontros, de palavras conversadas ao vento, de planos e acertos, de sabor de frutas, de cheiros e, sobretudo, de gente falando a língua mágica do povo. Isso porque a feira tem um sentido popular de integração.

Mas não é todo dia que a feira muda a feição de seus objetos de oferta e faz da palavra produto mais importante no mercado.

A palavra, de uso individual ou coletivo, faz-se presente nesta feira que vende idéias, emoções envoltas em capas coloridas para conquistar os olhos e depois entrar nos corações dos que atendem ao seu chamado.

Aconteceu assim com a FEIRA DO LIVRO, sonhada e realizada pela Nossa Escola. Com apoio da Secretaria de Estado da Cultura.

A palavra, nas suas mais variadas formas, foi o encantamento da feira, seu objeto maior. Ela trouxe o passado, o presente e o futuro nas tendas que foram visitadas por todas as idades. Mas a preocupação maior da feira foi, como não podia deixar de ser, com a criança. Isto porque, no exercício da feira, estava o pensamento comprometido da Nossa Escola com a literatura, com a construção da crítica, com a descoberta do livro como caminho da sensibilidade. A escola é feliz até no nome, porque a gente se sente também pertencendo a ela, toda vez que pronuncia seu nome.

Mas na Feira, além dos livros, outras ofertas foram feitas: palestras,mesas-redondas, apresentações cênicas e musicais, contações de estórias, lançamentos de livros, presença de autores, com a pretensão de conquistar leitores, ouvintes numa oferta dos "feirantes da palavra".

Escritores daqui e de lá, livros daqui e de lá.Todos unidos, respondendo ao convite da Nossa Escola para abrir caminhos para crianças, jovens e quem mais quisesse.

Algumas crianças nunca tinham visitado uma biblioteca, e um me disse que "nunca tinha visto tanto livro junto", soldados enfileirados na defesa da palavra.

O importante da Feira não foi somente a solenidade, presença de autoridades, a palestra, a música, nem as palavras esperançosas do prof. Luiz Alberto dos Santos, Secretário da Cultura, vislumbrando uma Bienal do Livro. A função maior da feira foi cumprir um papel humanizador fazendo da literatura matéria de educação, repetindo o dizer de Regina Zilberman quando fala que literatura educa sim.

Pena que os universitários de letras, de comunicação, de pedagogia, de história não tenham tomado assento nas salas das palestras e mesas-redondas para dizer presente à cultura sergipana em nome não só do conhecimento, mas do prazer do encontro que as feiras, desde a sua mais remota origem, provocam.

Seria interessante não só comprar livros, mas, sobretudo, conversar literatura, tomar da palavra pra discutir idéias, saber da beleza existente na troca de saberes e significados.
Podia ter tido mais gente?
Podia.
Podia ter vendido mais livro?
Podia.
Podia ter mais gente nas palestras?
Podia.
Mas, se não começar o caminho, como se pode saber o gosto da caminhada?

Pra mim uma grande alegria, além de ter proferido palestra, foi ter ido à Biblioteca Infantil que leva meu nome, ser recebida com flores por Claudia, sua atual diretora, e contar estórias de nosso folclore a várias crianças que comigo cantaram e arregalaram os olhos para olhar o imaginário da "Menina dos brincos de ouro" e do "Menino sabido e o Padre" como se fosse verdade verdadeira. Mas será que não é? Pois, nas estórias da nossa cultura popular, os conflitos humanos se apresentam, os valores se degladiam nas falas do povo, fazendo da oralidade a nossa cara cultural.

É isto que importa. Salvar as crianças enquanto há tempo.

Os adultos que ainda não se descobriram como leitores que fiquem para trás com sua "leitura identificadora de símbolos e signos", mas sem a cumplicidade com a emoção e a sensibilidade, presentes nos livros, que rompem a barreira do tempo e nos abraçam em viagens intermináveis.
Parabéns à Nossa Escola pela idéia e a todos que desfrutaram da sua consciência cultural, marcada na rotina da sala de aula, como prática de uma literatura consciente.

Aglaé d'Ávila Fontes
Professora, pesquisadora, contadora de estórias... patrimônio cultural de Sergipe