EDIÇÃO IMPRESSA ATUAL - Nº 90-OUTUBRO DE 2007



Disciplina e coragem
[09/05/2007- Matéria da Edição :88-julho de 2007 ]
Uma visão cristalizada da educação estrutura as relações não rumo à evolução, mas na contramão do que mais desejamos: educar para que os filhos possam crescer e Ser, para que criem suas vidas e as façam valer a pena. Assistimos a uma entrevista com idosos que deixaram suas marcas nas ciências, em empresas financeiras, em trabalhos sociais, na arte. Uma pergunta foi comum a todos: Em suas vidas, o que valeu a pena? Sem exceção, ouvimos: a família e o trabalho. Elegeram-nos como os melhores contextos para a realização dos afetos e dos atos mais criativos. Ou seja, em trabalho e família, sublimaram-se, singularizaram-se e engrandeceram a si e ao seu entorno. Por isso suas vidas valeram à pena.
Nesses contextos, afirmam: demos sentidos à própria vida - os mais dignificantes. No ocidente, por razões históricas, tendemos, muitas vezes, a infinitas queixas. Infinitas e imobilizantes. Criamos a partir do "não", o olhar é de lince para os riscos inerentes à vida. Os lamentadores-mores transformam todo o fazer só em risco. Nós, educadores, colocamos a escola nesse lugar de trabalho e num íntimo laço com o esforço da transição de crianças em homens livres, preparados para interagir com o mundo ativamente. A educação, porém, está em crise. Nenhum educador duvida disso. Pedimos, então, auxílio ao otimismo e à tenacidade dos chineses: "em crise, abrem-se possibilidades" e "viver é arriscado". Homens de coragem, no entanto, não se enterram por isso, nem de forma literal, nem no ressentimento ao que constrói. Se há ganhos, há perdas. Quantos "gols fora" foram dados por Pelé, enquanto delineava seu título de maior jogador?
É desconcertante o esforço que se faz para entender as relações mergulhadas na barbárie, em um tempo de tecnologia grandiosa, sem parâmetros. Atordoados, somos desafiados em dimensão ímpar a descobrir novos caminhos e a coerência entre tecnologia e relações humanas. Queimar índio, espancar doméstica, ouvir a patética defesa dos vândalos por seus pais encrudescem a perplexidade. Nada há de novo em atos bárbaros dos filhos do privilégio e da impunidade, mas, sim, no olhar. Temos ciência do nosso dever social em superar tanto primitivismo, mas sem estupidamente balançar entre a permissividade e a repressão. Sem, tampouco, cair na armadilha da nova moda esquizofrênica: "como liberal, entrego a educação do meu filho a mãos linha-dura". Há clínicas psiquiátricas se multiplicando por aí, mas não é opção para os filhos do amor mais corajoso.
A educação não tem apenas o aspecto funcional, mas também o estético, o ético, e tudo isso só se monta sobre o tripé da soberania, da responsabilidade e da justiça. Nessa estrutura de atributos essenciais a quem educa, estão intrínsecos a coragem e o cuidado com os afetos. São muitas as categorias que compõem o nosso cotidiano educacional. Apreender as suas formas, as suas dimensões e o nível de influência delas nas relações de todas as ordens nos fortalece e ajuda a fortalecer a todos para a construção de seus melhores sonhos. Por isso, urge discutir a confiança que só pode ser delineada pelo olhar, pelo diálogo, na construção de valores mútuos, entre os iguais-iguais ou iguais-no-devir; a prática milenar do "com sangue a letra entra" e do seu pseudo-avesso, "aprendizado natural", ou seja, ora age-se com o que há de mais primitivo, ora, cheios de culpa, recorre-se ao determinismo religioso e da natureza abandonando a responsabilidade de educar; entender afeto e rigor, possibilidades que se enlaçam como tão bem esclareceu Içami Tiba, ao popularizar a frase "Quem ama, educa"; analisar democracia e autoritarismo, categorias difíceis de administrar e só possíveis quando compreendemos a idéia de devir e projetamos o mais frágil da relação no lugar de seu igual; lidar com autonomia e disciplina, elementos que exigem esforço para compreender em tese, mas que, na vida, só realizam juntos: a autonomia, a auto-soberania só se constrói com muita disciplina, ou, como diria Sartre, não há liberdade desvinculada de toda responsabilidade em exercê-la; compreender o esforço em massificar e a intolerância à diversidade é debulhar o enleio entre o deleite cruel e a cristalização do poder que o impede de transitar nas relações; e por fim, vimos que desafiar nem sempre significa sanção como a prática os confunde ou a má fé os aproxima. Se há, de fato, uma aproximação entre essas duas ações, isso se faz no que ambas têm de mais positivo: a possibilidade de reparação e de reestruturação de algo.
Encaramos o risco de não ser claros ao discorrer sobre tantas categorias já minuciosamente analisadas no Projeto Político Pedagógico da Nossa Escola. O risco vale a pena porque tranqüiliza os que desconhecem todo o empenho de auto-reflexão desta instituição, e contamos sempre com o Nossa Voz para continuar a discussão com mais clareza e tempo.

Por Anita M. Fidellis Mariconni.