EDIÇÃO IMPRESSA ATUAL - Nº 90-OUTUBRO DE 2007



Aos alunos mais amados
[09/05/2007- Matéria da Edição :88-julho de 2007 ]
Não sei em outros tempos... Não quero sentir saudades como Miguilim (de Guimarães Rosa) do grande oceano nunca visto desde aqui, do meu sertão. Mas não consigo também lutar contra as palavras que guardam a vida e dão-lhe sentido assim que as expresso. Eu fico logo, sob suas influências e com uma saudade triste de um tempo que nem sei se existiu - talvez a vida sempre tenha se dado no sertão árido, em que "o gostar e não o gostar a priori" encastelou a todos. Não os permitindo mergulhar nas ondas sonoras de Vangelis, de Tchaikovsky, de Elgar e assim, aprender a ouvir, ou mergulhar na transparência de águas límpidas e sem fim do saber, onde se aprende a ver, ou no lago profundo, onde se possa verdadeiramente sentir o outro e a si mesmo.
Já nasceram vocês, meninos modernos, encastelados no "gosto", no "não gosto" e até no "sei lá"? Será mesmo que a lenda urbana não é só lenda? Ao nascerem, caíram de boca, cabeça e de corpo inteiro num tanque de Coca-cola e nele se dissiparam no igual, na moda uniforme, onde o "gosto" e o "não gosto" já estão definidos por um único, uníssimo sabor. E os outros sabores? Os vários sabores que levam vocês a interagir com o maior presente de todos, que é a vida, fazem-lhes dizer que tudo valeu a pena. Lá, quando chega a hora do balanço. Fausto até estabeleceu contrato com o diabo para desfrutar melhor de seu presente. Mas não fiquem tentados, porque hoje os termos com o tal se modificaram. Não era bom e ficou ainda pior. Se é que o coisa ruim existe, pela alma, ele oferece a preguiça, a folga e a superficialidade. Recolhendo-a à vista e, não mais a prazo, como foi com Fausto (de Goethe). Por isso, seria comum ver gente sem alma, destituída de valores e forma, perdida, assim, na moda e na onda?
Definitivamente, já não se faz diabos como antigamente. Às vezes, eu até penso se não seriam eles próprios a preguiça, a folga e a superficialidade. Sem querer brincar muito com isso e por mais tempo, vamos aos céus "co' os santos" (Dante Alighieri). Com esses, sim, façamos o contrato em favor da vida e preservemos a alma. Atentem-se, no entanto, para o que vou dizer: eles são santos, mas não são bobos e exigem de cada jovem que queira virar homem, ou seja, capaz de sonhar e alcançar muito dos seus sonhos, colocar na frente não "o gosto", mas o sonho e o compromisso. Os santos, ainda, pedem que juntemos a isso o esforço e a coragem. Todos esses atributos são os seus instrumentos de mergulho no tal grande e verde mar do qual sempre estamos sentindo saudade. Essa saudade definitivamente não é coisa só de Miguilim. É de todos nós e é uma saudade não do passado, mas do futuro que está por vir - por nossas próprias mãos: um mundo habitado por gente de sonhos grandiosos e aguerrida no construir.
Nesse mundo, meus jovens, vocês estarão sempre livres, porém responsáveis pela sua própria vida, no erro e no acerto, e, lá dos céus, virão os aplausos, honrarias muito dignas de todos os que de verdade conquistam a auto-soberania. Aproveito para lembrá-los do melhor conceito de gente vencida e disso se protegerem: "Que gente é esta vencida? São pessoas que vão misturadas ao molesto coro dos anjos que não foram nem revéis, nem fiéis a Deus, senão ao próprio foro" (Alighieri). Numa linguagem menos medieval, os vencidos são aqueles que não se conduz pelos valores que figuram no alto, mas pelas contingências e pelos benefícios mais imediatos perpetuando-se numa vida mesquinha.

por Anita Arievilo