EDIÇÃO IMPRESSA ATUAL - Nº 90-OUTUBRO DE 2007



Educação - Na Gênese de Toda Construção Humana
[05/05/2007- Matéria da Edição :85 - Março de 2007 ]
Ó marcha implacável das sociedades humanas!
Perda de homens e almas ao meio do caminho!
Oceano onde some tudo o que a lei deixa cair!
Sinistra inexistência de auxílios!
Ó morte moral!
Victor Hugo
Às vezes, temo que o valor que damos à educação esteja superdimensionado por um modo de pensar mais próprio, temo que seja uma crença delineada por um ideal de vida praticado diária e intensamente. Eu bem que tento aquela técnica de suspensão de valores, olhar para "as coisas tal como se nos apresentam" ou produzir novos olhares para o mesmo mundo e assim ver outro mundo e não o mesmo. Sou bem esforçada como aqui declaro, e por isso busco também a compreensão a partir do olhar do outro, em outros modos de estar no mundo. Na maneira de um médico, por exemplo: sem corpo nem há vida... Mas com o tempo, mesmo nesse exercício, não diminui o valor crescente que venho atribuindo à educação e aos educadores. Pelo contrário, eu a vejo e os vejo na gênese de qualquer início de invenção humana, ou seja, na invenção da própria humanidade. Como a volta a um estado primitivo é impensável - por quem pensa, é claro - não há, portanto, o retorno do processo civilizatório; seja lá qual foi o resultado até então.
Vimos o nazismo sendo criado em nome do humanismo, não é mesmo? O que não nos esmorece - "mesmo quem sofre não tem o direito ao pessimismo" (Nietzsche) -, mas fortalece em nós a idéia de que educar e refletir sobre a educação se faz premente se quisermos mudar os rumos já mal sucedidos dos processos civilizatórios: nazismo; drogas; ameaça de vida em nível planetário, como, continuamente, vem sendo discutido no meio científico; caos afetivo e cognitivo por falta de referências e de auto-referência - nesse mundinho hedonista, em que ter brio é muito incômodo. Portanto, o melhor mesmo é fazer pouco das boas referências. Externas ou internas. E por aí vão os nossos equívocos na construção da civilização ou da humanidade. Por isso que, em aliança com Sartre, que vincula liberdade e responsabilidade, é sempre bom reafirmar: somos nós, os homens, responsáveis pela construção da nossa humanidade a partir do que nos é dado, claro. Esse complemento final é importante porque corremos o risco de nos pensar como Deus. Coisa bem mais comum do que se supõe.
O desvencilhar-se de equívocos se faz premente, dizem os professores, como o do deslumbre sem medida - entre tantos outros equívocos - pela tecnologia, que pelo excesso, reforça a prepotência dos homens. Atrevo-me a recomendar - com uma certa descrença, confesso; não pelo valor do conselho, e sim pelo ouvido mouco da sociedade confusa em sua tarefa de educar - as televisões fora da sala de jantar para que os rostos possam novamente ser familiares, para que os sentimentos possam ser lidos, outra vez, no olhar; para que, até mesmo, as repreensões dispensem as palavras duras, como aconteciam nos tempos em que brincávamos nos quintais de nossas casas. Bastava, naquele tempo, o olhar para percebermos a zanga e cobrirmos o rosto com o véu rubro do pudor. A nossa barbárie se revela nisto: na pouca compreensão que temos de sutilezas como os sentimentos do outro - dos filhos, dos pais, de nossos amigos. Por isso, talvez, uma turista amiga se comoveu muitíssimo com sua experiência aparentemente banal numa viagem à Argentina, e por isso, também, a sua comoção fez sentido para nós que a ouvimos. Num Natal, na Argentina, a guia turística disse delicada e muito naturalmente... - aliás, ela quase não disse... Acreditou ser óbvio - já estava posto - que no Natal, aquele grupo de visitantes em seu país deveriam se virar sem ela, porque era a festa da família: dela e de seus pais. Alertou-os, diante da inesperada surpresa do grupo: não veriam "nadie en las calles", somente turistas e uns pouquíssimos restaurantes ou espetáculos. Disse, então, a nossa amiga, que frente a isso, ela voltou o seu olhar para o lado e, "num cenário tão impessoal, viu o que se tem de mais próximo e íntimo: os rostos de seus filhos. Felizmente eles estavam com ela, senão morreria de culpa diante a lição daquelas famílias que tão amorosamente preservam as suas relações." Posteriormente, disse ela: "passamos a nos dar conta dessa invejável intimidade nos parques, nos museus, nos cafés etc."
Educar, diz Freud, é uma tarefa impossível, mas mais impossível, todavia, parece ser as crianças e os jovens se submeterem a algum tipo de educação, à idéia de encaminhar as suas vidas à luz dos valores de cada família e escola. Recentemente, um pai lamentava que as escolas privadas, como são pagas, evitam os conflitos promovendo "o não olhar" substituindo-o pelo olhar tecnológico. Esse não julga, e, portanto, não confronta, o que é ótimo para o caixa da escola, já que ninguém se desgasta, e isso não faz desaparecer os clientes. Que caos, não? Parece ficção; mas é real. Uma educadora do estado da Bahia, numa reunião pedagógica, fez a listagem de seus clientes dos últimos anos que lhe exigiram um olhar mais cuidadoso para garantir o seu desenvolvimento escolar; o relacionar-se com o outro muitas vezes; o aprender a relacionar-se com a qualidade que garante fazer coisas que signifiquem algo, que façam sentido. Essa lista estava sendo feita em função de uma desconfiança que lhe surgiu. Ela viu que justo esses alunos que mais tempo do educador exigem são os que sempre se vão. O olhar que cuida, que julga, que questiona, que encaminha torna-se pesado para os pais, que, por sua vez, reforçam a fragilidade dos filhos em se educar, em crescer de forma séria e responsável. Os pais preferem o não olhar, os filhos preferem o não olhar. O olhar educador - mesmo sendo o que estrutura - tem sido ofensivo a muitas famílias. Não é o tipo do olhar, mas "o olhar" é o que incomoda. Indulgente ou julgador. Minucioso, então... - talvez esse medo seja um sintoma que mereça a nossa atenção assim como a dificuldade de muitas famílias diante do querer inadequado dos filhos. Por isso, colocá-los ou colocar-se em salas com superlotação vem se tornando uma solução bem interessante para muitos. Para o espírito empreendedor também o é. Para o empreendedor com espírito de educador, porém, essa opção é atordoante.
Podem os mais apressadinhos dizer que isso acontece - a ofensa - em nome da liberdade, valor esse que equivale a muitas cabeças sob a guilhotina... Mas a ofensa não se dá em nome dos mais sagrados valores humanos. É ser superficial com o conceito e injusto com a revolução francesa. A ofensa deve-se mais à revolução industrial, que, em meio a tantos produtos para o nosso conforto e até para o nosso ato criativo, inventou a preguiça que tão bem distorce o conceito de liberdade. Com máquinas cada vez mais sofisticadas, não forjaram somente a preguiça - física, mental e, o que é pior, moral - inventou-se o indivíduo para massificá-lo (Guattari). No entanto, a preguiça e a massificação são pontos separados toto coelo do mundo industrial. Eu insisto na possibilidade de ser singular, de sublimar-se através de atos mais criativos que acabam por dar sentido às nossas vidas.
Toca-me, profundamente, Schiller em forma de um belo poema trágico: Crede-me! Todos amam viver livres,/ segundo suas próprias leis./ Domínio estranho, a custo se tolera./ Só à força.. Ressalto nesses versos, sobre a liberdade, o seguinte: "todos amam viver livres segundo as suas próprias leis". Toca-me fundo também Nietzsche que ao falar de liberdade e de lei, expressa-se de modo denso e tão desconcertante: O homem livre, senhor de uma vasta e indomável vontade, acha nessa posse a sua tábua de valores:(...) para julgar os outros, respeita ou despreza, e assim como venera os seus semelhantes, os fortes que podem prometer - aos que prometem como soberanos, dificilmente, rara vez, depois de madura reflexão, avaros de confiança, que dão a sua palavra como quem dá uma tábua de mármore, que se sentem capazes de cumpri-la, a despeito de tudo, ainda a despeito do destino - (...) Em tal homem, a consciência da responsabilidade, a consciência dessa liberdade e poderio, chegando às profundidades do seu ser passou ao estado de instinto dominante; como chamar a este instinto dominante, se supusermos que sente a necessidade de um nome? Não oferece dúvida: o homem soberano chama-se a sua consciência...
O que há em comum em Schiller e em Sartre e nesse pequeno e denso texto de Nietzsche? Toda uma noção de liberdade ligada à responsabilidade, ou seja, dão a sua palavra como quem dá uma tábua de mármore, que se sentem capazes de cumpri-la, a despeito de tudo, ainda a despeito do destino. E por fim, ele afirma: Não oferece dúvida: o homem soberano chama-se a sua consciência... Onde se dá essa consciência, senão num rigoroso processo de educar e de se educar: sob o olhar, sob o julgar, sob o refletir e no estabelecimento do melhor de nossos valores com coerência e propriedade para construir a sua tábua que quando colocada ao outro, se transforma em mármore e nos guia para um lugar mais próprio no mundo, enquanto também garante a nossa soberania. Como chamar de educação "o não olhar" e acreditar que é uma possibilidade de preparar-se para o mundo, para um mundo tão competitivo e pouco generoso?
Anna Maria Luis Fidellis Mariconi