EDIÇÃO IMPRESSA ATUAL - Nº 90-OUTUBRO DE 2007



Para que curar-se?
[20/03/2007- Matéria da Edição :84 - Fevereiro de 2007 ]
A pergunta parece óbvia demais para ser formulada. Afinal, quem não quer se livrar das dores, sofrimentos, humilhações e a angústia de ver-se sempre ou, em algum momento da vida, preso a algum tipo de doença? A doença estaciona a vida. A doença escraviza. A doença é um empecilho para a felicidade. E quem não quer ser feliz?
Durante séculos, a humanidade se debruçou sobre ela. Pesquisou, procurou remédios, antídotos, soluções para aliviar o sofrimento humano. Freud buscou e percebeu intrincada rede de explicações que justificavam o porquê deste sofrimento. Encontrou um ser humano fatidicamente preso e condicionado ao seu passado, a sua história, as suas origens. Jung foi mais longe e percebeu condicionamentos ainda ancestrais. E chegamos, enfim, à conclusão de muitos porquês-físicos, psicológicos, culturais que explicariam o sofrimento humano.
Em algum momento, porém, desse descortinar de descobertas sobre o ser humano, alguns filósofos e psicólogos ousaram contestar esse condicionamento fatídico. Diriam, como Viktor Frankl, “o ser humano tem condicionamentos, mas ele não é condicionado”. Portanto, existe uma dimensão humana que escapa a esse condicionamento. Uma dimensão que é capaz de olhar distanciado sobre si mesmo. De se questionar, se julgar e tomar novas decisões diante da vida, apesar dos condicionamentos. Existe uma dimensão humana que é, antes de mais nada, livre.
Mas, mais uma vez, isto era somente uma “linha de pensamento”, ou mais uma “escola filosófica”. Não havia como se ter certeza dessa afirmação. Continuávamos fadados a “escolher” uma linha filosófica para “acreditarmos”.
Mas uma resposta iniciou-se com um trabalho terapêutico original: ao invés de partir-se de uma abordagem filosófica pré-estabelecida, questiona-se diretamente o inconsciente de cada paciente, através de uma concentração enfocada, não hipnótica, em torno de questões fundamentais para aquele paciente, mas também sobre questões universais. E percebeu-se uma sabedoria imensa vindo do inconsciente de cada paciente, independente de cultura, credo ou raça. Fomos descobrindo, pouco a pouco, pergunta por pergunta, que o ser humano sabe, em seu inconsciente profundo, o porquê de sua doença. Esse ser humano é capaz de dar detalhes sobre ela. Inclusive como e quando a doença foi criada. Percebe-se também o paciente responsável por ela, porque se percebe o autor, o criador dessa doença que o faz sofrer tanto.
Mais que isso. Ele, o paciente, percebe também que, se ele criou a doença, ele também é o único que sabe como revertê-la. E, durante o processo terapêutico, através do inconsciente, o próprio paciente dá os detalhes de sua cura. E, realmente, muitos conseguem efetuar e decodificar o código da doença, conseguindo livrar-se dela.
Caberia então agora a exclamação: - Então descobriu-se a cura de todos os males?!! E a resposta seria não. Infelizmente. Porque o ser humano é livre. E se ele foi livre para escolher a doença é porque existia um motivo muito forte para isso. A pergunta, agora, não é mais o “por que estou doente?”, mas “para que eu iria querer me curar?”
Essa pergunta também foi feita ao inconsciente de nossos pacientes. E a resposta que obtivemos foi que precisavam da doença para se sentirem amados. E, como o ser humano precisa ser amado, então eles estavam presos ao fato de precisarem estar doentes. Isso é uma questão crucial: o ser humano não quer a doença, mas quer ser amado. Se para ser amado ele precisar pagar com a própria vida, ele, surpreendentemente, paga. Pois é mais imprescindível, para o ser humano, ser amado do que ser saudável.
Mas não podíamos nos conformar com esse “livre aprisionamento” do ser humano, portanto, continuamos a nossa investigação. E perguntamos: - Como? Como funcionava isso: a doença como motor de ser amado? E os pacientes foram nos explicando: “- quando estou doente, eu sou o centro das atenções, dos carinhos, tudo se desculpa, tudo se perdoa, tudo se releva. Eu não preciso dar explicações, nem dar respostas à vida, pois estou “preso” à doença.
Percebemos então que existia aqui uma outra associação, mais perigosa e mais escravizante que a primeira: mais atenção sendo igual a mais amor. Ou ainda, a necessidade de precisar mais atenção como um caminho que leva a se sentir mais amado. Assim, eu preciso necessitar de mais atenção para me sentir mais amado. Paga-se o preço. O problema é que não se recebe a mercadoria.
Explicando melhor: através da doença, eu consigo receber mais atenção com certeza. Mas eu consigo me sentir mais amado? A resposta do paciente, invariavelmente, é não. Pois eu duvido sempre da autenticidade desse “amor” que vem como resposta à minha doença. Eu duvido sempre se a “atenção” vem porque me amam, ou se é porque eu preciso dela. Assim, dessa forma, a sede de amor não se esgota, e eu preciso adoecer mais. Está feito o círculo vicioso da doença crônica.
Concluindo: para que seja possível eu me livrar dessa cadeia, gerada por mim mesmo, é preciso que eu abra mão da mentira criada por mim, da deformação do meu eu, na doença. Mas para isso é preciso que exista um “para que ficar bom”, que me transcenda, que ultrapasse a mim mesmo. É preciso que eu desista de “cobrar amor”- atenção – do mundo. É preciso que eu decida primeiro amar. Independente dos fatos, das pessoas, das circunstâncias, dos condicionamentos, da minha história. Para amar, eu sou livre. Só depende de uma decisão minha. Para ser amado, eu preciso que os outros decidam me amar. E eu não posso interferir na liberdade do outro.
Se eu preciso ser amado, eu me torno escravo do outro, dos seus condicionamentos, das suas dificuldades, de seus problemas, de seu egoísmo. Se eu cobro amor, eu preciso adoecer, então não acredito no amor que vem.
Assim, eu só sou livre “para amar”. Mas se eu tomar essa decisão e efetivá-la, o que acontece é que eu provoco tanta alegria, vida, harmonia e bem estar com a minha simples presença, que não posso duvidar que sou amado, e, melhor, que mereço ser amado. E começa a ser bom amar, ser perfeito, ser saudável, ser íntegro, ser eu mesmo. E se eu sou eu, como duvidar de que o que sentem por mim é autêntico? Se eu sou verdadeiro, o que eu produzo também é verdadeiro…
Portanto, agora posso me realizar na vida, no amor, profissionalmente. Posso ser feliz no casamento. Posso ter filhos saudáveis. Posso sorrir, me alegrar, ir ao encontro do outro. Por quê? Porque a decisão é minha. Para quê?
Para poder realizar aquela missão que resume toda a essência do sentido da existência humana, a capacidade de amar, amar incondicionalmente.

Maria Clara Jost de Moraes - Tip terapeuta