EDIÇÃO IMPRESSA ATUAL - Nº 90-OUTUBRO DE 2007



O extremo poder da crença
[20/03/2007- Matéria da Edição :84 - Fevereiro de 2007 ]
Até que ponto você crê? Qual o alcance das suas crenças? Aonde elas lhe têm levado?
Todos nós, desde a mais tenra idade, absorvemos ensinamentos, conselhos, diretrizes, superstições... enfim, sempre estamos buscando algo que nos oriente e nos inspire em momentos de decisões e nos fortaleça nos momentos em que somos testados. Neste sentido, a crença em algo - idéias, pessoas, valores, vozerios - tem substituído a capacidade de ouvirmos a nós mesmos e de acreditarmos no que somos capazes por nós mesmos.
É fato que estamos submetidos a um vozerio tremendo diariamente, seja nas relações que estabelecemos, seja através dos meios de informação ao nosso dispor (a imprensa). Diante desta realidade, o que fazemos, como nos comportamos?
Gosto muito do episódio que nos adverte sobre o modo como as nossas crenças nos influenciam e daí, o cuidado que devemos ter para com elas.

Leia atentamente o episódio que segue:
"Durante muito tempo, minha família desejava uma churrasqueira a gás, do tipo com um grande bujão de propano embaixo. Mas pessoas haviam me alertado para os perigos do gás propano. Ele é realmente combustível. Quando inalado, é tóxico. Eu ouvira ou lera em algum lugar que, no estado natural, o gás propano é inodoro, mas que os refinadores adicionavam um cheiro para que qualquer vazamento fosse imediatamente detectado e evitado.
Assim, quando minha família ofereceu a tão discutida churrasqueira a gás para o Dia dos Pais, concordei com entusiasmo. Minha esposa telefonou para a Sears e encomendou um modelo de luxo. Ela também se ofereceu para pagar a entrega e a montagem. Os filósofos não conseguem montar nada além de idéias.
Dias depois, a loja telefonou avisando que a churrasqueira estava montada e "pronta para entrega". Minha esposa comprou os hambúrgueres, as salsichas e todos os apetrechos de churrasco e nos preparamos para a festa. Quando os sujeitos da entrega chegaram, avisaram que eu teria de fixar o bujão de gás na churrasqueira, sozinho, quando estivesse pronto para usá-la. Eles explicaram que eram obrigados a entregá-lo solto. Supus que era perigoso transportar o bujão fixado na churrasqueira. O gás venenoso poderia matar os sujeitos na entrega.
Eles foram embora, e, com ajuda das instruções escritas e diagramas, comecei a fixar o bujão. Mexi na mangueira e conectores, mas fiz tudo errado e comecei a sentir falta de ar. Eu estava trabalhando ao ar livre, para que qualquer vazamento de propano se dissipasse rapidamente, mas obviamente não havia brisa suficiente, e eu estava inspirando propano demais nos pulmões. Sob o olhar da família, resolvi mudar o ritmo da ação. Eu respirava profundamente, corria até a churrasqueira , febrilmente aparafusava, girava e martelava e corria de volta para uma cadeira a seis metros de distância, suspirando por ar puro. Repeti a seqüência várias vezes, até achar que a conexão estava completa. Mas quando tentei acender a churrasqueira, não houve fogo. Ao me inclinar para inspecionar todas as conexões, sentia-me delirante e nauseado pelo gás.
Decidimos telefonar para a Sears. Expliquei o que fizera e que estava obviamente intoxicado de propano. Eu estava doente, a confusão mental começava a me dominar. Como filósofo, temi estar perdendo preciosos neurônios. Meus pulmões doíam. Em minha confusão mental, ouvi o sujeito da Sears perguntar:
- "Aonde você levou o bujão para carregar de propano?"
- "O que você quer dizer? A churrasqueira acaba de ser entregue esta tarde, e o sujeito disse que estava pronta para ser usada."
- Estava, exceto pelo gás. Vendemos apenas bujões novos com nossas churrasqueiras, e eles vêm vazios. Você tem de ir a um posto de gasolina ou mercadinho carregá-lo de gás. Por isso ele não acende. Você recebeu um bujão vazio.
Senti-me o verdadeiro idiota! Estava sendo intoxicado por uma falsa crença. Sentia sintomas físicos por algo que não estava ali. Eu o cheirava. Deixava-me tonto. Sentia-me doente. Mas um sopro de informações frescas foi tudo de que precisei para melhorar. Fisicamente pelo menos. Mentalmente, estava um tanto mortificado. Minha esposa e filhos morreram de rir. E saíram para comprar umas quentinhas.
AS PESSOAS PODEM MORRER DE MERA IMAGINAÇÃO."
Após lido esse episódio, gostaria de convidar-lhe a refletir um pouco sobre as nossas crenças:
- Sob quais ilusões você está vivendo agora?
- Que coisas você valoriza sem realmente terem a importância que você lhes atribui?
- Que coisas realmente valiosas você pode estar ignorando?
- Que suposições você faz sobre sua vida que podem se basear em aparências, em vez de realidades?
Muitos de nós estamos presos a ilusões múltiplas e nem ao menos nos apercebemos disso. Cabe a nós investigarmos qual filosofia de vida nos inspira em nossas ações: aquela que liberta ou aquela que aprisiona?
Temos ouvido uma série de depoimentos acerca do que fazer para se dar bem no vestibular e, se observarmos bem, nas entrelinhas desses depoimentos está inscrito com letras garrafais: CUIDADO COM AS SUAS CRENÇAS! ACREDITE EM SI MESMO!
Esse cuidado deve se dar no sentido de verificar o real e o ilusório. O aluno que optou pela vida de estudante tem plena consciência daquilo que ele sabe bem e daquilo que ele não sabe e em que, portanto, necessita de reforço, de aprofundamento. Ele sabe de suas habilidades e de seus limites. Mas sabe também que, esgotadas as ajudas externas (professores, orientadores, colegas...), cabe apenas a ele esse movimento de empenho e dedicação aos estudos, visando ao domínio dos conteúdos específicos.
Essa lucidez é fundamental, todavia ela necessita estar acompanhada de uma plena otimização dos seus ideais, sonhos, projetos..., pois são eles que dão o impulso e a força necessários para que o aluno se mantenha firme em suas atividades. Feito isso, a autoconfiança de que pode mais, além do que tem feito, aumenta a sua obstinação e fortalece na constância de seus propósitos.
Dito isso, queremos salientar que posturas adversas a esta aqui descrita são expressão de fracasso do aluno em si mesmo: fracassa na falta de autoconhecimento, fracassa na falta de perspectivas, fracassa diante do seu próprio fracasso, fracassa por fim, na falta de investimentos na sua própria vida.
Afinal, uma vida não refletida não vale a pena ser vivida . Uma vez que o preço pago e o desgaste experimentado vão além do que podemos arcar.
Estejamos atentos, portanto, às nossas crenças, àquilo em que elas nos vêm transformando e aonde elas nos têm levado.
Jadson Tavares de Jesus

Ilustração: Victor Cardozo (1º ano do Ensino Médio)

1 MORRIS, Tom. Filosofia como atividade in Filosofia para Dummies. Rio de Janeiro: Ed. Campus. 2000. p 20s.
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