EDIÇÃO IMPRESSA ATUAL - Nº 90-OUTUBRO DE 2007



São assim os amores eternos
[28/02/2007- Matéria da Edição :83 - Janeiro 2007 ]
Como já anunciei algumas vezes: adoro história de amor. Contada, então, por alguém que a viveu, é linda.
Era uma vez um taxista argentino que se deu conta de duas brasileiras perdidas, nas ruas de Buenos Aires, correndo atrás do que havia de mais genuíno: comer onde comem os argentinos; passear nas ruas "en las tardecitas de Buenos Aires..."; ler, em suas livrarias mais tradicionais, obras espano-latinas; somente "hablar" nem que seja em "portunhol" e tomar café no tradicionalíssimo Thortoni. Corriam dos programas turísticos: caros e inautênticos. Somente assim, disseram elas, conhece-se um país. O taxista, no entanto, quis falar em português, mas num português ensombrecido pelo tempo e pela saudade. Foi, então, que ele iniciou a sua história. E elas, claro, puseram ali toda a atenção. Conhecer é isso também - ouvir.
"Eu vivi no Rio de Janeiro durante muitos anos." "Ah, sim.... E que tal nuestro país? Perguntou uma das mulheres em tom coquete. "Lindo..." E não completou a frase. Elas ficaram esperando a razão de ele achar "el nuestro" país tão lindo, claro. Mas ele silenciou. E mesmo sem ver os seus olhos, podiam supô-los bem distantes. Nas ruas de Copacabana. Alguns segundos depois, continuou a meia voz. "Não foram muitos anos... foram poucos anos." Interrompeu novamente. Das ruas de Copacabana, onde se encontrava os seus olhos e possivelmente sua alma, ele subiu pelo elevador, colocou de lado um saco de frutas tropicais e variadas. Abriu rapidamente a porta de seu apartamento porque o telefone tocava insistentemente. Aliás, ele tocava sempre às seis da tarde. Do outro lado linha, diz ele: "Era ela, a brasileira que me levou daqui. Ela sempre pedia: prepare-me uma caipirinha, daquelas que só você sabe... Para brindarmos..." E ele inventava mil sabores, várias surpresas... Na porta, recebia-a, às vezes, com as taças nas mãos. Às vezes não; às vezes esperava-a com um jantar à vela sobre a mesa. Ele a brindava. Eles, então, brindavam ao amor.
"Oh!...E depois...porque o senhor retornou?" Perguntaram as mulheres."
"Bom, o encanto de viver no Brasil durou enquanto durou o amor."
"Ah." Disseram...
Mas ele, de volta às ruas de Buenos Aires, concluiu, então, a sua história já com a voz menos soturna, com olhar no sinal e as mãos na direção:
"São assim os amores eternos. Eles duram tão pouco".

Maria Luiza Cannes Da Noca -
somente ela sabe bem contar uma boa e picante fofoca