EDIÇÃO IMPRESSA ATUAL - Nº 90-OUTUBRO DE 2007



Um Gato muito estranho
[29/01/2007- Matéria da Edição :82 - nov_dez 2006 ]
Helena saiu de seu trabalho e foi para I Feira do Livro de Sergipe - Leitura e Contemporaneidade. Claro que o programa era imperdível... A caminho da feira, percebeu que o seu tanque assinalava com a luzinha de vazio. Parou no posto mais próximo. Encheu o tanque e pediu que vissem a água, o óleo - essas coisas que quem sempre faz são os maridos. O frentista abriu o capô e... "um gato?!" Suas mãos começaram a mover-se freneticamente dentro do motor do carro. Helena estranhou: como assim, um gato? "É...um gato." "Baah...alguém quis roubar o meu carro? Como?" "É um gato mesmo..." "Sim, mas ...quem iria ...?"
O frentista abaixou bem um lado do corpo, e um de seus braços afundou no motor.
Helena, confusa, saiu do carro para tomar ciência daquela esquisitice... Olhou. Mas não havia nenhum fio ali, fora de lugar. Fora de lugar só os movimentos irracionais de mãos e de braços do frentista. "Cadê?!". Ela perguntou. "Ali". Apontou o frentista. "Veja a orelha dele". "Orelha?!! Não são fios?...Como assim , orelha?? " "Veja os seus olhos bem ali". Ela não viu definitivamente olhos. Na verdade, nem haveria como ver olhos no que ela estava entendendo ser um "gato". Alguns curiosos se aproximaram... Eles viram. O gato. "Que gato??" Impaciente, Helena retrucou. "Lá..." E nada de o gato tornar-se visível. Até que um medo de bem distante - lá da infância, talvez, daquelas histórias de gato ou do "Cão" - substituiu nela por inteiro o que, até aquele momento, era somente sensação de estranheza.
Mais pessoas se aproximaram. Olharam, apontaram. De súbito, a imagem de um gato bem preto, com barriga e patas para cima, num desajeitado sinal de protesto e de pavor, fez-se visível ao seu olhar. Estaria doente? Talvez, com a tal da raiva. Ou estaria pronto para pular, com garra e tudo, naqueles curiosos incômodos... e ameaçadores?
O que fazer com o gato, nessa altura, já enroscado na correia do motor do carro? "Se o motor for colocado em funcionamento, estraçalha o gato." Observou, comovido, o frentista. A ducha de água seria solução? Todo molhado, o gato nem assim saiu; pelo contrário, enfiou-se em lugares mais escondidos. Outra idéia foi dada e de pronto executada: com o jato de ar, eles tentaram, então, expulsar o gato. Ele, porém,... desconhecia o objetivo de tudo aquilo, ou não estava de acordo... e se enroscou em um lugarzinho, todavia, mais dentro do labirinto de metal, fios e correia.
"Só mesmo trazendo um mecânico para desmontar todo o motor", disse o frentista desistindo, de vez, de seus recursos e das idéias dadas pelos curiosos. Helena, desanimada, chamou o marido para buscá-la, mas também para ajudá-la. Com o intruso de seu bem móvel. Almoçaram discutindo o drama "motor e gato". Antes mesmo de irem atrás do mecânico, arriscaram voltar ao posto. Quem sabe o gato - que era gato mesmo - morreu ou deixou de teimosia?
Ao chegar, eles viram o carro de Helena no alto do elevador de troca de óleo e com muitos olhos curiosos a examiná-lo, enquanto algumas mãos se enfiavam por baixo, no motor. O frentista não havia desistido de verdade. Tampouco o gato... Desceram, então, o carro. Abriram novamente o capô ... e lá estava o bichinho, um filhote bem pretinho, brilhando no frescor de um quase recém-nascido... e com olhos faiscantes. De tanto medo.
As mãos do frentista deslizaram com rapidez, sobre o corpo miúdo e trêmulo e o agarraram... Bom, eu quis saber o destino do gato. Helena, no entanto, o deixou ali, nas mãos do frentista e dos curiosos e foi aliviada... para a I Feira do Livro de Sergipe - Leitura e Contemporaneidade. Deixou o gato com o seu destino.

Maria Luiza Cannes Da Noca