EDIÇÃO IMPRESSA ATUAL - Nº 90-OUTUBRO DE 2007
Roosevelt R. da Costa*



O que é ser um Protagonista?
[23/01/2007- Matéria da Edição :81- outubro de 2006 ]
Baseando-se na etimologia da palavra Protagonismo (Proto = principal, primeiro; agon = luta; agonistes = lutador), considera-se protagonista um ser que atua diretamente no processo de desenvolvimento pessoal e de transformação da sua própria realidade assumindo um papel central, ou seja, de ator principal.
No contexto escolar e sócio-comunitário, ações protagônicas deverão envolver, principalmente, jovens educandos no sentido de ampliar o seus cabedal de conhecimentos e repertórios interativos para que adquiram maior capacidade de interferir, de forma ativa, construtiva e solidária no processo de identificação e minimização dos problemas reais na escola, na comunidade e, conseqüentemente, na sociedade.
O desenvolvimento de ações protagônicas na escola pressupõe uma modificação na maneira de entender os adolescentes e de agir em relação a eles. O adolescente deve começar a ser visto como solução ou parte primordial de soluções e não como problema. Assim, o educando será fonte de iniciativa (na medida em que é dele que parte a ação), de liberdade (uma vez que na raiz de suas ações está uma decisão consciente) e de compromisso (manifesto na sua disposição em responder por seus atos) disseminando suas idéias com participação autêntica, nas suas relações sociais.
Assim, quando o adolescente, individualmente ou em grupo, envolve-se na solução de problemas reais, atuando como fonte de iniciativa, liberdade e compromisso, temos um quadro de participação genuína no contexto escolar ou sócio-comunitário, o qual pode ser chamado de protagonismo juvenil.
Na perspectiva do protagonismo juvenil, é imprescindível que a participação do adolescente seja de fato autêntica e não simbólica, decorativa ou manipulada. Essas últimas são, na verdade, formas de não-participação. Tais formas desviadas de participação podem causar danos ao desenvolvimento pessoal e social dos jovens, além de minar a possibilidade de um convívio autêntico entre eles e seus educadores. A participação é a atividade mais claramente ontocriadora, ou seja, formadora do ser humano, tanto do ponto de vista pessoal como social.
Compromisso ético entre educadores e educandos, clareza conceitual acerca dos temas abordados e vontade política dos educadores e gestores no sentido de contribuir, através dos seus trabalhos, para o desenvolvimento de grupos conscientes e participativos são pré-requisitos que potencializam a construção coletiva de atividades que possam gerar impactos mais significativos na qualidade de vida da comunidade escolar. Desse modo, o jovem protagonista deve estar sempre bem fundamentado acerca dos temas emergentes na sua comunidade e comprometido com a identificação e superação (ou minimização) dos problemas locais para que o seu trabalho seja sempre valorizado e reconhecido.
Uma habilidade de extrema importância a ser desenvolvida pelo jovem protagonista é a de se comunicar no sentido de compartilhar informações e saber ouvir. Para isso, a comunicação deve ser entendida como um processo horizontal, no qual o diálogo é a sua principal característica. Em conseqüência, os diferentes interlocutores poderão emitir e receber mensagens, interpretá-las e reinterpretá-las na construção de um significado. Vale ressaltar que, para compartilhar informações, existem muitas modalidades e processos de comunicação que podem ser utilizadas no interior da escola, como dramatizações, utilização de músicas, vídeos, artigos, reportagens, livros didáticos etc. Essa diversidade de mídias, associada à criatividade dos jovens potencializa o desenvolvimento de diversas atividades com grande participação da comunidade escolar.
A evolução do trabalho com jovens adolescentes para implementação de uma ação protagônica segue, de modo geral, as seguintes etapas:
1. Apresentação (ou identificação) da situação-problema.
A situação deve ser apresentada do modo mais realista e desafiante possível. É necessário embasá-la em dados, informações e objetivos.
2. Proposta de alternativas ou vias de solução.
Deve-se procurar extrair do grupo o maior número de alternativas ou vias de solução para o problema apresentado.
3. Discussão das alternativas de solução apresentadas.
As propostas devem ser discutidas e criticadas livremente. O grupo deve estar consciente de que as idéias e não as pessoas que as apresentam estão em julgamento.
4. Tomada de decisão.
Durante a discussão, o grupo vai descartando as alternativas mais inviáveis e inconsistentes até chegar à decisão final, que pode ser unânime ou majoritária. Só em caso de omissão da maioria do grupo, a solução deve ser minoritária. Essa, contudo, é uma situação indesejável, que deve ser evitada ao máximo por todos.

Na realização de atividades com outros jovens, cabe ao protagonista: * Envolver-se na identificação da situação-problema e estimular os demais a posicionar-se diante delas;
* Empenhar-se para que o grupo não desanime nem se desvie dos objetivos propostos;
* Favorecer o fortalecimento dos vínculos entre os membros do grupo;
* Motivar o grupo a avaliar permanentemente sua atuação e, quando necessário, replanejá-la;
* Manter o clima de empenho e mobilização do grupo;
* Administrar oscilações de comportamento entre os demais jovens, como conflitos, passividade, indiferença e agressividade.
* Respeitar a identidade, o dinamismo e a dignidade de cada um dos membros do grupo.

Essa maneira de trabalhar certamente irá contribuir para que as potencialidades dos jovens possam emergir com uma conduta de enfrentamento de modo efetivo dos problemas da escola, da comunidade e da vida social. O fundamental é acreditar sempre nesse potencial criador e na força transformadora dos jovens.

Bibliografia

COSTA, Antônio Carlos Gomes. O adolescente como protagonista. Material didático pedagógico da oficina de capacitação do Projeto Estamos Juntos. Maputo, 2006.
OLIVEIRA, Valdir de Castro. Comunicação, informação e ação social. Material didático pedagógico da oficina de capacitação do Projeto Estamos Juntos. Maputo, 2006.

* Professor de Ciências e Biologia da Nossa Escola