EDIÇÃO IMPRESSA ATUAL - Nº 90-OUTUBRO DE 2007



O conteúdo escolar e a magia dos mitos
[18/10/2006- Matéria da Edição :80 - Setembro de 2006 ]
Temos insistido na necessidade de os pais e a sociedade de modo geral terem uma idéia mais clara do que é fundamental na educação escolar. Iniciamos, então, cada ano, dizendo que existe um currículo mínimo, determinado pelo MEC, para ser aplicado de Norte a Sul do Brasil, nas diferentes áreas do saber. É um currículo que escola nenhuma neglicencia. É o que se espera, claro. Tendo isso afirmado, por lei e pela ação responsável de todo educador, devemos engrandecer a nossa escola em arte, em responsabilidade, na estruturação metodológica a favor do homem ativo, soberano.
Em anos e anos de experiência, verificamos a necessidade de repetir essa informação básica porque aprendemos a entender a lógica dicotômica através da qual a sociedade analisa as questões educacionais. É um modo de pensar que vem sendo incentivado por conservadores que se assustam diante das mudanças tão necessárias a uma educação mais completa e elaborada e por pessoas de má fé, que contaminam os desprevenidos e os leigos com os seus discursos viciados e fáceis. Como "confiança não se tira das coisas feitas ou perfeitas: ela rodeia é o quente das pessoas" segundo Guimarães Rosa, queremos esquentar as discussões, mas abandonando o fácil e os vícios. Queremos mesmo é desafiá-los a pensar ,de forma inteira, sobre uma educação mais responsável e fecunda.
É estranho afirmar, mas é necessário: o acréscimo de literaturas, de desafios matemáticos; o acréscimo dos cuidados com o Ser envolvido nesse processo escolar, ou seja, com os Alunos, não sacrificam em nada o nosso compromisso com o saber, que é o objetivo primeiro de toda escola. Ao contrário, otimiza esse saber. Torna esse saber mais significativo, garante de fato a sua apreensão e faz o pensamento agir. Não há mais o teórico e o que trabalha. Há o empreendedor em seu sentido mais amplo. Há a possibilidade de o homem agir com mais precisão e sabedoria, no mundo real. Assim como a possibilidade de refleti-lo e representá-lo no local exato do limite entre a ação e a gênese da representação é bem maior quando fazemos coincidir ação e pensamento. Num só tempo. Ou quando optamos pelo pensar nas positividades, na construção do nosso mundo; ou seja, por um saber nas relações com o outro e com o mundo.
Mas por que falar do empreender e de homens como Juscelino Kubitschek e Barão de Mauá? Bom, para explicar isso, temos que falar de mitologia grega, do Ser, da gênese da nossa cultura, daquilo que queremos superar e do que queremos cultivar.
Sobre a mitologia grega, devemos começar com a história do rei Midas, que um dia aprisionou o sábio Sileno e exigiu-lhe que lhe contasse os segredos da vida. Sileno, um grande sábio, detentor dessa verdade, negou-se, mas a coação tomou um rumo tal que ele, o sábio Sileno, após alertar de que não seria bom conhecer a verdade sobre a vida, revelou-a: o melhor para o Homem seria não ter nascido. Já que nasceu, o melhor é morrer breve (Nietzsche). Mesmo ante a trágica revelação, muitos homens optaram pela vida; claro que alguns optaram por sua negação representando-a de diversas formas. Mas os que optaram pela vida optaram por qual vida? Por uma vida inventada. Inventada com a arte, com as ciências, com os mitos que nos trouxeram os Deuses, Deus. E nós passamos a olhar para o alto e a nos projetar ali, emprestando, desse modo, a dignidade dos Céus ao nosso cotidiano. Os gregos inventaram os deuses do Olimpo, e nós buscamos hoje não os mesmos deuses. Os cristãos descobriram um só Deus, "o que vem e guia a gente por uma légua, depois larga" (Guimarães Rosa). Sendo assim, em meio a nossa solidão, foi necessário guiar-se por outros mitos com os quais os homens passaram a delinear os seus valores, emprestando dignidade às suas vidas.
Imitamos, então, os helenos (gênese remota do homem que um dia foi inteiro)... Contamos para os alunos histórias de homens com a grandeza de Mauá, de Juscelino, de Marco Pólo, que, por sua vez, buscaram inspiração no alto. Eram mesmo homens que buscaram "alto la suya estrella". Contamos as suas histórias com a magia dos contos de fada, com a seriedade de quem busca dar elementos para a criação de sentido para a vida humana, de quem sabe do esforço e da fortaleza que temos que desenvolver para viver a vida, delinear projetos e realizar sonhos. Fazemos isso tomando como base autores que não se contentam com olhares superficiais e equivocados; mas, sim, com pesquisas fecundas; tomamos como base, sim, autores refrátarios à crítica miúda. Afinal "é fácil pensar mal, porque esta vida é embrejada" (Guimarães Rosa). Evitamos, assim, os caminhos fáceis e a visão de ressentimento aos que verdadeiramente constroem. Cultivamos a grandeza e o amor à nossa nação, aos nossos heróis e ao nosso Deus.


Anna Maria Fidelis Luis Mariconi (consultora pedagógica)