EDIÇÃO IMPRESSA ATUAL - Nº 90-OUTUBRO DE 2007



Vá ao psicológo, benza-se, mas não esqueça da química e do corpo
[05/05/2007- Matéria da Edição :85 - Março de 2007 ]
Reunião pedagógica... é ótimo, organiza a gente para o trabalho e vai além quando damos espaço para fofoca. A fofoca, com isso, também ganha; adquire outro caráter: informativo, educativo. Outro dia, discutindo sobre raciocínio dicotômico na educação - coisa tão comum quanto causadora de confusões - ouvimos a seguinte história.
Veja só que judiação: uma senhora - nossa colega de trabalho - foi ao cardiologista. Estava obesa. O discurso do cardiologista girou em torno da sua falta de amor próprio e de Deus, que nos criou. Dentro dessa "linha científica de ponta", ele comprovava a sua teoria e o seu amor a si mesmo com o seu corpaço. Malhado que só. Bem bonitão, mas irritadiço, o médico. Não soubemos esclarecer o porquê da irritação: se era com a impotência da nossa amiga diante da sua gordura ou com a sua própria impotência, sabe-se lá em relação a quê. Mas a gorda... coitada. Se falta de amor próprio engorda mesmo e ofende a Deus, ela ia triplicar os seus quilos e engordar sua consciência.
Era também época dos exames ginecológicos anuais. Ela foi. Com amor ou sem amor próprio, não dá para faltar a esse compromisso. Foi uma semana de exames. O fazer de exames foi um tédio - filas, esperas, agulhas, toque - e os resultados, estes então, angustiaram-na de vez. "A falta de amor próprio, pelo jeito, causou foi estragos" - pensava consigo mesma, a cada resultado. Foi enviada, então, para o endocrinologista. Mais exames. Não deu outra: antes mesmo de o endocrinologista falar, ela abriu a boca no mundo... a chorar. Afinal, sempre fora tão saudável e sempre acreditou se amar - lamentou. "Como isso foi acontecer comigo? Por que deixei de me amar?" O médico quis rir, mas percebeu que seria grave. Com cara de quem nada entendia de amar-se ou de não se amar; mas sim de menopausa, de produção de hormônios e de metabolismo, explicou a relação desses itens e passou uma receita. Dessa vez, diz ela: "a minha sensação de vexame foi, todavia, maior do que no cardiologista: eu com cara de choro, e o médico com cara de paisagem. "Mas, pelo menos, deu resultado" - a nossa amiga se consola. Ela tomou os remédios, fez o tratamento direitinho e perdeu 10 quilos em pouquíssimos meses. Sobre o amor próprio e a fé, ela não aprofundou muito, não. Foi às compras porque era mais urgente. Com tantos quilos a menos, não tinha o que vestir. Mas, qualquer dia, ela procura um psicólogo - "por que... vai saber, não é mesmo?"
Bom, de aprendizado pedagógico ficou uma lição. Existe, mesmo, um "borramento" de fronteiras entre os diferentes saberes, e estão equivocados os que fazem a superposição de um sobre o outro. Somos corpos, estrutura psíquica, alma... - "Os médicos que entrem num acordo e poupem-nos desses "micos" - diz a ex-gorda". Dicotomia só para os desinformados de qualquer área. Na pedagogia, aqui - diz a consultora - fazem as relações entre ato criativo e conteúdo, entre disciplina e ternura. Assim os alunos não pagam mico por aí. Eles são bem adequados e fortalecidos emocional e intelectualmente.