EDIÇÃO IMPRESSA ATUAL - Nº 90-OUTUBRO DE 2007
Clouse Marinho



Hora da escola: filhos rumo à independência
[28/02/2007- Matéria da Edição :83 - Janeiro 2007 ]
O ingresso na escola é um momento de desafio tanto para os pais como para os filhos. Um mundo novo se abre para a criança, que vem de um universo com o qual tem total intimidade. Encontra agora, em um novo espaço, pessoas desconhecidas, com as quais não tem ainda qualquer vínculo afetivo. Como lidar com tanta novidade, que provoca tanta insegurança? Essa é uma tarefa conjunta, para escola e família.
Há procedimentos que facilitam a adaptação da criança, mas não falo aqui de um manejo padronizado, ideal para que se tenha sucesso nessa situação, pois as crianças são diferentes em suas necessidades. Em alguns casos, por exemplo, a separação provoca mais ansiedade nos pais do que na própria criança. Desse modo, a tranqüilidade do início do processo pode se transformar em resistência quando a criança nota a desilusão dos pais por terem sido "dispensados" tão facilmente. Para outras crianças, é importante que uma pessoa de seu afeto, por algum tempo, esteja ao alcance de seus olhos, ao alcance de seu toque, sempre que elas precisarem. Há também as que necessitam de que os pais se despeçam e reapareçam na hora de buscá-las, ainda que o tempo de distanciamento seja breve; assim, têm mais possibilidade de firmar laços de afetividade com as professoras, com o ambiente. Aquele objeto querido pela criança é algo que pode funcionar também como fator de segurança. É o elemento através do qual ela traz a casa para a escola.
Há também procedimentos que comprometem a relação entre pais e filhos e borram todo o esquema de adaptação. Prometer recompensas na base do "eu lhe dou um pirulito se você ficar", além de confundir valores (e estragar os dentes), é tirar da criança o direito ao tempo para elaborar o novo. Mentir para a criança saindo da escola depois de ter combinado que ficaria ali é roubar-lhe o chão sobre o qual se equilibra. Isso provoca muita insegurança; o filho passa a não saber quando pode contar com a família. Mesmo quando são sinceros, muitos pais assistem à dificuldade de seus filhos em compreender, inicialmente, que não foram abandonados. Imagine o que acontece quando são de fato enganados.
O olhar experiente da escola percebe sutilezas durante esse período tão especial. A família deve poder contar sempre com o conhecimento e a sensibilidade das professoras para evitar ocorrências que provoquem trauma ou desconfiança. Muitas vezes, é na hora do banho ou na hora da alimentação ou na freqüência do xixi e do cocô que a criança manifesta o seu estar emocional. É por isso que esses momentos não devem ser encarados como menores, na rotina escolar, e merecem posição de destaque na pauta dos profissionais da educação. Dos cuidados básicos aos mais complexos procedimentos para o desenvolvimento cognitivo da criança, tudo é importante no trabalho da escola, que precisa munir-se de profissionais com boa formação e em formação, sempre.
Devo dizer ainda que, desde a opção pela escola, é preciso garantir a comunicação. Nas breves conversas de porta de sala, nas reuniões com outros pais, nos encontros mais individualizados, nas palestras, pelo caderno de comunicados, família e escola devem pensar juntas a respeito do desenvolvimento da criança. Uma fornecendo elementos para a ação da outra. É assim que se estabelece a confiança necessária para que meninos e meninas realizem na escola o ato criativo, que verdadeiramente legitima o saber.
Pensando na chegada dos pequeninos e no apoio de que seus pais necessitam em um momento tão significativo de suas vidas, mais uma vez a Nossa Escola iniciou o ano letivo da Educação Infantil somente com as turmas do Maternal, para as quais foi oferecido todo o espaço e toda a atenção. Após as duas primeiras semanas de atividade, chegaram as outras crianças encontrando um ambiente mais tranqüilo e em condições de melhor recebê-las. A partir daí... Bem, a partir daí, há muito mais assunto para o Nossa Voz.

Aglacy Mary