EDIÇÃO IMPRESSA ATUAL - Nº 90-OUTUBRO DE 2007



O TREMA FOI ABOLIDO?
[20/09/2006- Matéria da Edição :79 - agosto de 2006 ]

O debate em torno de mudanças ortográficas freqüentemente envolve esse sinal

Essa é uma pergunta interessante, menos pela resposta objetiva que ela demanda e mais pelo fato mesmo de ser formulada.
A questão em si é relativamente desimportante. Apesar de não ser inútil, a presença ou a falta do trema não altera muito nossa capacidade de compreender adequadamente um texto escrito. Durante anos, o jornal Folha de S. Paulo dispensou o emprego do trema. Havia gramáticos que não gostavam, mas o público em geral nem se dava conta.
O trema, entretanto, não foi "abolido". A legislação em vigor para a ortografia da língua portuguesa continua preconizando que ele deve ser empregado sobre a letra U sempre que, nas seqüências GUE, GUl, QUE e QUI, esse U corresponder a um fonema pronunciado átono. É o que ocorre, por exemplo, nos vocábulos agüentar, pingüim, seqüestro ou lingüiça. Quando, nesses casos, a letra U não corresponder a um fonema, não há trema, como em guerra, guisado, querer ou conquista.
Mas por que tanta gente tem dúvida sobre se o trema está ou não "em vigor"?
Primeiramente - mesmo que pareça um pouco óbvio - é conveniente lembrar que, para o bem e para o mal, no Brasil, ortografia é lei. Não se trata de um sistema do tipo consuetudinárío, em que a norma advém dos costumes apenas, sem a necessidade de registro formal explícito. E leis, como todos sabemos, variam com o tempo.
A legislação atual sobre ortografia teve sua última versão promulgada em 1971. Ela, de fato, fala de aIterações no emprego do trema. Mas esse é um tópico que hoje soa quase obscuro. Tratava-se do emprego nos "hiatos átonos", como em saudade, então grafada saüdade, ou gauchisrno, então gaüchismo.
Esse fato talvez tenha causado a primeira dúvida. Como um dos empregos do trema foi abolido, quem ouviu a notícia, mas não entrou nos pormenores, concIuiu que o trema havia sido totalmente abolido.
Mais recentemente, nos anos 1990, discutiu-se a unificação dos sistemas ortográficos adotados nos países falantes da língua portuguesa. Seus dois países economicamente mais desenvolvidos, Brasil e Portugal, adotam ortografia, embora próximas, não coincidentes. Portugal não adota o trema, e, na proposta que então se pactuou entre os dois países, ele seria abolido para toda a lusofonia.
Mas o acordo não foi para frente, continuamos com sistemas ortográficos distintos, de acordo com os quais o trema faz parte do sistema adotado no Brasil, mas não em Portugal.
Mas de tudo isso restou a dúvida: o trema, afinal, foi ou não abolido? Já vimos que não. Mas o fato de muita gente ainda não saber ao certo parece sugerir o modo (ainda um tanto distante e confuso) com que os debates lingüísticos chegam ao grande público.
Há alguns anos, a Folha de S.Paulo voltou a empregar o trema. Menos talvez pelo prejuízo que causava aos leitores e redatores e mais pela pressão advinda de o jornal ser o único dos grandes veículos a não aderir ao sistema ortográfico fixado pela lei.

Fonte: Revista Discutindo Língua Portuguesa, nº 02.